| Cidadania já!
I - Mudar é preciso!
“Mudem tudo, mas apenas o suficiente para manter tudo
exatamente como está”!
A frase em epígrafe é do protagonista do romance
O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o príncipe de
Salina, ironizando as reformas propostas pelos conquistadores da
Sicília, na época do herói nacionalista italiano
Giuseppe Garibaldi. O atual Presidente do Brasil, como os outros
governantes que o precederam ao longo do Império, das ditaduras
militares e das repúblicas consideradas democráticas,
vive prometendo realizar as reformas institucionais necessárias
para a construção de uma verdadeira cidadania, acabando
com as oligarquias dominantes e as injustiças sociais. Mas,
se mesmo quando muda o maestro, a orquestra continua a mesma, como
acreditar nas promessas de quem já esteve quatro anos no
poder, acobertando a corrupção e convivendo com a
iniqüidade e, pelo visto, servindo-se dos mesmos músicos
para o segundo mandato?
De outro lado, o desencanto e o ceticismo não levam a nada.
Enquanto nossos problemas institucionais se agravam cada vez mais,
países emergentes estão encontrando seu caminho de
desenvolvimento sustentado. Estamos cansados de ouvir que as coisas
são assim mesmo, pois os representantes dos três poderes
sempre estiveram preocupados apenas em defender seus interesses
corporativistas, pouco se lixando com a miséria do povo e
as injustiças sociais. É este conformismo da grande
massa do povo brasileiro que nutre os corruptos há séculos
e reelege sucessivamente uma oligarquia egoísta e sórdida.
Mesmo agora, depois que as CPIs escancararam o ventre da corrupção
nacional, tirando a máscara de tantos líderes carismáticos,
o povo continuou votando em deputados e senadores denunciados e
condenados por corrupção ativa e passiva. E reelegeu
um Presidente que não realizou as reformas prometidas. Quem
nos leva a crer que Lula fará num segundo mandato o que não
fez no primeiro? A verdade é que o povo não tinha
escolha, pois o partido do seu concorrente já esteve no Poder
e fez muito pouco no que concerne a desigualdade e a injustiça
social. O problema, portanto, não é dos homens, mas
do sistema institucional, que tem vícios endêmicos.
A ninguém que chega ao poder interessa mudar o status quo,
que lhe é extremamente vantajoso.
Urge mudar a mentalidade da grande maioria que se contenta com esmolas
em lugar de clamar por seus direitos de cidadania. Medidas assistenciais
são até necessárias, face á miséria
extrema em que vive uma grande parcela do nosso povo; mas elas,
por si só, são insatisfatórias, pois não
resolvem os problemas na sua raiz. Chegou a vez de pensarmos no
futuro de nossos filhos e netos. Que pátria estamos construindo
para nossas crianças? O cristão brasileiro, ao nascer,
herda não só o pecado original, mas também
uma dívida pública original de milhares de Reais,
pela culpa dos avôs e pais, que gastaram mais dinheiro público
do que foi arrecadado. As novas gerações estão
sofrendo as conseqüências da imprevidência. É
o egoísmo da classe dominante que tem provocado a falta de
planejamento familiar, de escolas de bom nível, de atendimento
médico, dentário e hospitalar satisfatório,
de transporte coletivo eficiente, de segurança pública.
Em vista de que não podemos esperar dos atuais homens públicos
as reformas de base sem uma forte pressão da opinião
pública, urge que a sociedade civil saia do torpor atávico
e comece a exigir medidas institucionais capazes de reverter a situação
de atraso e de injustiça social. Com o fim de colaboração,
apresentamos, a seguir, alguns tópicos para reflexão.
O autor dessas linhas é um Professor de Literatura, acostumado
a lidar com idéias e sentimentos. Ao longo de sua vida, aos
poucos, conseguiu se livrar de preconceitos e tabus, buscando o
bom senso e o raciocínio lógico. Face ao recente agravamento
das instituições públicas, começou a
sentir nojo de políticos corruptos, de juízes turrões,
de religiosos fanáticos, de burocratas parasitas, de profissionais
incompetentes, de pais irresponsáveis, de pobres preguiçosos,
enfim, de toda forma de hipocrisia e de egoísmo. Esta “campanha”
é um convite para despertarmos da letargia e lutarmos para
uma mais justa distribuição dos bens, convencidos
de que “ninguém pode ser feliz no meio da miséria”.
Cabe aos entendidos em Direito Constitucional, Economia e Sociologia
elaborarem projetos substanciais e exeqüíveis por futuros
políticos bem intencionados, visando uma Reforma de Base
do Estado Brasileiro, mexendo na raiz, nas causas profundas dos
problemas sociais e existenciais. Os princípios expostos
são radicais, mais qual é a verdade que não
dói? Se quisermos salvar o corpo infectado, faz-se necessário
amputar os membros cancerígenos! Solicitamos e autorizamos
a divulgação desta matéria, na íntegra
ou por tópicos, através de qualquer meio de comunicação.
II - Política é Profissão?
“Política é a arte de obter votos dos pobres
e dinheiro dos ricos,
prometendo a cada grupo defendê-lo contra o outro” (Oscar
Ameringer)
Se a resposta for afirmativa, então perguntamos por que não
regulamentar tal profissão, exigindo cursos universitários
específicos, assim como se exige de quem exerce o ofício
de médico, advogado, diplomata? O homem que sente vocação
para servir à sociedade como político deveria se preparar
para isso, percorrendo uma carreira de estudos de Graduação
e de Pós-Graduação em Ciência Políticas,
Administração de Empresas, Direito Constitucional,
Economia ou Sociologia para adquirir a competência necessária,
assim como se exige de outros profissionais.
Se, contrariamente, a resposta for negativa, entendendo-se que a
atividade política não é uma profissão
específica, podendo ser exercida por qualquer cidadão
que queira dar sua contribuição para o bom governo
da sociedade, então não deveria ser remunerada. Caberia
ao Estado pagar somente as despesas feitas durante o desempenho
da função e dar algum pro labore circunstancial. O
político não deveria deixar sua profissão própria
de médico, engenheiro ou industrial para dedicar-se apenas
à atividade de vereador ou deputado. Nem poderia exigir pensão
vitalícia por alguns anos de serviços prestados pelo
bem da coletividade. É justo que um funcionário público
se aposente como servidor e como político, acumulando várias
polpudas aposentadorias, enquanto um trabalhador braçal tem
que trabalhar 35 anos para ganhar uma mixaria?
Na verdade, o que está acontecendo atualmente é que
o político não é uma coisa nem outra. Não
é um profissional, pois não se preparou para o cargo,
havendo políticos mal alfabetizados, que não entendem
nada de administração, direito, economia ou humanismo.
Nem é um cidadão que se dedica à política
por vocação, de uma forma graciosa, destinando um
tempo de sua vida para servir o público. Muito pelo contrário,
com raras exceções, os candidatos visam a atividade
política como uma forma de investimento: gastam uma fortuna
na campanha eleitoral com o intuito de recuperar o capital multiplicado.
Para viver apenas de política pelo resto de sua vida, o político
é obrigado a cuidar do seu reduto eleitoral com o fim de
poder-se reeleger sucessivamente, fazendo barganhas e conspurcando
seus ideais para conseguir legendas e verbas para a próxima
candidatura. Ele, impelido a retribuir o apoio recebido, não
estará preocupado em resolver os problemas fundamentais da
sociedade humana como um todo, mas apenas a zelar pelos interesses
do grupo econômico e dos compadres que financiaram suas campanhas.
III - Bipartidarismo
Já foi dito e a história confirma que ainda não
foi inventado um sistema político melhor do que o democrático,
pelo qual todo o poder emana do povo e deve ser exercido com a finalidade
primordial de prover ao bem estar e à felicidade da totalidade
da população. E nada mais justo, pois a fonte principal
da riqueza de um País provém da arrecadação
dos impostos pagos por trabalhadores, produtores e consumidores.
Acontece, porém, que o regime político que vigora
no Brasil nunca respeitou a vontade da maioria dos votantes, pois
não são os homens mais votados que tem o poder de
dirigir o País. Na prática, devido à fragmentação
dos partidos, são as legendas nanicas que acabam dirigindo
a Nação. Por exemplo, se o partido A recebe 40% dos
votos, o B 30% e o C 15%, será este último (ou vários
pequenos associados), a ser o fiel da balança. Os partidos
menos votados barganham seu apoio com um ou outro partido, que tem
uma maioria apenas relativa. Para que qualquer projeto de lei possa
ser aprovado é preciso fazer concessões, distribuindo
cargos, favores, privilégios, liberações de
verbas, tráficos de influências, passando a pôr
em prática o famigerado ditado evangélico “é
dando que se recebe”, que está em conluio com o maquiavélico
“o fim justifica os meios”. Em nome de princípios
ideológicos ou até jurídicos são cometidas
ações nefandas que envergonham a sociedade humana.
A nosso ver, o Pluripartidarismo e o financiamento privado das Campanhas
Eleitorais constituem as duas fontes fundamentais da corrupção
institucionalizada.
O remédio seria a adoção do sistema do Bipartidarismo,
que já existia na Roma Antiga, a mãe do Direito Público,
onde havia apenas o partido Aristocrático e o partido Democrático.
Tal forma de regime funciona, ainda hoje, nas mais eficientes democracias
modernas (Conservadores e Trabalhistas, na Inglaterra; Republicanos
e Democratas, nos EUA, por exemplo). A experiência brasileira
da Arena e do MDB não pode ser levada em conta, pois se deu
durante o execrável regime ditatorial, que impedia o livre
exercício da liberdade, censurando a imprensa e os outros
meios de comunicação. A proposta atual seria a de
institucionalizar apenas dois partidos: um, voltado mais para a
“direita” conservadora, interessado na salvaguarda dos
direitos individuais ou de corporações; outro, com
inclinação para a “esquerda”, defendendo
as classes menos favorecidas. Simplesmente, o primeiro poderia ser
chamado de “Partido Liberal” (PL) e o segundo de “Partido
Social” (PS). O candidato mais votado do partido mais votado
seria o Presidente da República, o segundo mais votado do
partido majoritário seria o Presidente da Câmara dos
Deputados e os outros cargos seriam divididos entre os dois partidos,
sempre respeitando a escala dos mais votados. A mesma coisa se daria
no âmbito estadual e municipal: o Vereador mais votado do
partido mais votado seria o Prefeito da cidade e o Deputado Estadual
do partido mais votado seria o Governador do Estado. Desta forma,
numa única eleição a cada quatro anos, o povo
faria prevalecer sua vontade. Se o partido vencedor não fizesse
um governo digno, que viesse ao encontro dos interesses da totalidade
do povo, na eleição subseqüente, seria substituído
pela oposição, havendo, assim, alternância no
poder. Mais ainda, se for implantado o regime parlamentarista, o
Presidente da República teria o poder de dissolver um governo
corrupto, a qualquer momento, convocando novas eleições.
A grande vantagem do Bipartidarismo é a garantia da governabilidade:
o partido vencedor nas urnas, tendo a maioria absoluta no Parlamento,
nas Assembléias ou nas Câmaras, não precisaria
dos votos da oposição para realizar todas as reformas
políticas e sociais prometidas nas plataformas eleitorais.
Não haveria necessidade de agradar “gregos e troianos”,
multiplicando ministérios e secretarias e indicando parentes
e apadrinhados de políticos para ocuparem cargos públicos
sem concursos. A Política não é profissão
e o Governo não é “cabide de emprego”.
A não ser Ministros do Governo Federal e Secretários
dos Estados, todos os outros postos de serviço público
realmente necessários deveriam ser preenchidos sempre através
de concursos por funcionários de carreira. Isso levaria a
uma Administração Estável, pois a mudança
se daria apenas no primeiro escalão do novo Governo.
Mas, como todo sistema político, o Bipartidarismo também
poderia apresentar inconvenientes. O maior seria o perigo de cairmos
numa “Ditadura Partidária”, se alguns “chefões”
se apoderassem das rédeas de um partido, tornando-se donos
das legendas, indicando os candidatos aos pleitos não pelos
méritos, mas por intrigas e interesses espúrios, coibindo
a liberdade individual de discordar e de se candidatar. Tal perigo
poderia ser esconjurado se, também aqui, fosse posto em prática
o princípio democrático de prevalecer a vontade da
maioria. Os dois partidos deveriam usar sempre o sistema de prévias.
Para qualquer eleição de dirigente partidário,
como para a escolha de candidatos a cargos públicos, deveria
ser obrigatório consultar as bases. E qualquer liderança
não poderia durar mais de quatro anos. Deveríamos
evitar, além dos políticos profissionais, também
os dirigentes de partidos ou sindicalistas de carreira. Estes também
deveriam ter um trabalho próprio e não viverem às
custas do partido ou do sindicato. Assim, tanto dentro do sistema
político, quanto no quadro partidário, haveria uma
constante renovação de pessoas e de ideologias, gente
nova substituindo constantemente as velhas lideranças. Democracia
é Renovação e não Apropriação!
IV - Parlamentarismo
Falar da passagem do sistema presidencialista para o parlamentarista
na atual conjuntura política pode parecer uma heresia, um
não-sentido. O Brasil nunca teve um Congresso envolvido em
tantos escândalos, com tantos partidos de aluguel e representantes
do povo interessados apenas na luta pelo poder com o fim de se enriquecerem
às custas do erário público. Mas, a nosso ver,
se a maioria dos políticos não presta, a culpa, mais
do que nos indivíduos, está no sistema que induz à
corrupção. A forma de governo que atualmente está
vigorando no Brasil torna nosso país simplesmente ingovernável.
Temos um sistema híbrido, um meio termo entre ditadura e
democracia: o Presidente da República não consegue
governar porque precisa da aprovação do Congresso
e o Parlamento não consegue legiferar, pois a Presidência
entope as pautas com Medidas Provisórias. Não tendo
maioria, o governo é obrigado a fazer barganhas com a oposição,
que só aprova novas disposições legais em troca
de cargos e favores e se elas não ferirem direitos adquiridos
e interesses de congressistas, magistrados ou burocratas do alto
escalão da República. Daí a inoperância
do poder executivo e legislativo, sem falar do judiciário,
perdido nos meandros de uma Constituição, que se tornou
uma colcha de retalhos. Deste modo, os governos se sucedem sem que
as tão almejadas reformas sociais tenham início, cada
Presidente culpando seu antecessor pelo fracasso.
O perigo maior é a perda das liberdades democráticas,
a persistir a desmoralização política, a injustiça
social e a violência urbana. Como costuma acontecer, as grandes
massas populares, cansadas do egoísmo individual e dos grupos
que regem a política, podem apelar pelo advento de um messias,
um salvador da pátria, que possa colocar ordem na casa e
satisfazer aspirações e necessidades populares. Pode
nascer, então, um líder carismático, tipo Hitler,
Stalin, Sadam Hussein, Fidel Castro, Hugo Chávez, um Big
Brother brasileiro (BBB), o “Grande Irmão” da
fábula de George Orwell, que tudo espiona, concentrando em
suas mãos o poder absoluto. Será que o nosso Lula
não está tomando este caminho pelo apego ao continuísmo
e pela prática do populismo, sentindo-se apoiado pela camada
popular mais carente? O perigo de uma revolução socialista
é real, se as forças do capital nacional e estrangeiro,
assim como a classe política brasileira, continuarem pensando
apenas em seus interesses, em lugar de promoverem uma mais justa
distribuição de renda, com trabalho, educação
e saúde para o povo. A acentuação da violência
na cidade e no campo é um sinal da revolta contra as instituições
completamente desmoralizadas. E o pior é que a perda das
garantias democráticas não seria compensada por uma
maior justiça social. A história nos ensina que nenhuma
forma de ditadura foi boa para a grande massa de uma população,
pois nenhum país se desenvolveu de uma forma sustentável
durante regimes absolutistas, de esquerda ou de direita, em vista
de que o estadismo não diminui, mas apenas esconde a corrupção.
Por que, então, não seguir o exemplo dos países
de cidadania mais avançada, onde a democracia realmente é
levada a sério? Se a democracia, por definição,
é o governo do povo, este deve ter a oportunidade de mudar
seus representantes, sempre que se sentir frustrado, evitando um
continuísmo pernicioso. No sistema parlamentarista, o Presidente
da República pode convocar novas eleições a
qualquer momento, se perceber que os políticos não
estão atendendo aos interesses do povo. Evidentemente, para
o Parlamentarismo funcionar a contento, ele deveria vir junto com
as outras reformas estruturais, que estamos apontando: bipartidarismo,
campanha política gratuita, enxugamento da máquina
estatal, abolição de cargos por indicação,
meritocracia, vinculação do salário máximo
ao mínimo, abolição de todo tipo de privilégio,
ensino básico em período integral, nova forma de tributação,
revisão da previdência social e do sistema de saúde.
Precisamos visar a construção de um sistema político-social
muito diferente do que tivemos até agora, simplesmente porque
este nunca funcionou. Isso, embora muito difícil, é
possível, se os cidadãos mais esclarecidos e com amor
à pátria brasileira fizerem um constante movimento
de renovação dos costumes políticos, exigindo
uma verdadeira cidadania. Sirvam-nos, como exemplo, o Portugal de
Salazar e a Espanha do Generalíssimo Franco: durante várias
décadas de ditadura, estiveram numa situação
pior do que o Brasil de hoje. Com a entrada no Mercado Comum Europeu
e a adoção da democracia parlamentarista floresceram
de uma forma esplendorosa, pois quem agora manda lá é
um Primeiro Ministro, que pode ser substituído a qualquer
momento pelo Monarca ou pelo Presidente, se não governar
corretamente.
V - Desproporção representativa
Se a quantidade de Deputados Federais fosse garantia do progresso
de um Estado ou região, o Norte, Nordeste e Centro-Oeste
do Brasil seriam as regiões mais desenvolvidas, pois, proporcionalmente,
se beneficiam de um maior número de representantes no Congresso.
A atual representação do povo brasileiro na Câmara
dos Deputados é uma das causas fundamentais do nosso governo
clientelista, que gerou um atraso secular nas instituições
políticas. A nossa Constituição de 1988, ao
estabelecer um número mínimo (oito deputados) e máximo
(70) para cada Estado, incentivou a criação de novos
Estados, aumentando desnecessariamente as despesas públicas.
Em paises realmente progressistas, o número de deputados
federais, além de ser menor (os EUA têm apenas 435,
contra os 513 do Brasil, embora nossa Confederação
tenha menos eleitores), é proporcional ao número dos
habitantes. O justo seria que cada Estado brasileiro tivesse um
percentual de deputados federais correspondente ao número
de seus eleitores. A vigente representação distorcida
dá-se não apenas ao nível federal, mas também
estadual e municipal. Criam-se prefeituras uma colada a outra, na
mesma cidade. Metade de uma rua pertence a um município e
outra metade a outra prefeitura, com impostos, taxas e normas burocráticas
diferentes, levando à loucura os coitados dos contribuintes.
E tudo isso para criar novos cargos públicos em Câmaras
e Assembléias, com o fim de acomodar os apadrinhados dos
políticos. Que saudade do tempo em que os vereadores prestavam
seus serviços gratuitamente! A desculpa de que precisa pagar
bem o funcionário público para evitar a corrupção
gora face à experiência de que os políticos
melhor remunerados são os que mais roubam! Infelizmente,
cada vez mais a atividade política está sendo vista
como um modo fácil de ganhar dinheiro e de forma não
sempre correta, que chega a ser imoral, embora seja “legal”.
VI - Campanha eleitoral e reeleição
A campanha eleitoral, da forma como vem sendo realizada, torna-se
a fonte da corrupção, a mãe de todas as desgraças
sociais! Se o candidato, para se eleger, é obrigado a gastar
dinheiro dos bolsos próprios ou de patrocinadores, é
de se esperar que queira o retorno do investimento com juros elevados.
Seria de suma ingenuidade acreditar que um homem, uma família
ou uma firma invista um capital enorme graciosamente, apenas por
um idealismo patriótico! Neste mundo, ninguém faz
nada de graça: até os mártires cristãos
ou os homens-bomba muçulmanos são motivados pela expectativa
de recompensas! Então, por que não cortar o mal pela
raiz e proibir qualquer investimento privado em campanhas eleitorais?
A divulgação do currículo e do programa dos
candidatos deveria ser feita apenas por meios de comunicação
gratuitos ou pagos pelo Estado ou pelo Partido, apenas nos períodos
eleitorais, utilizando-se jornais, revistas e canais de rádio
e televisão. Se não se proibir o uso do poder econômico
para a escolha de candidatos, nunca teremos gente honesta e competente
dirigindo o destino de municípios, estados e federação.
Nos moldes atuais, o voto é simplesmente comprado e se elege
quem tiver mais dinheiro para investir! O pior é que o exemplo
da iniqüidade vem da própria Presidência da República!
A reeleição para cargos executivos configura-se como
um crime de abuso de poder. Um Presidente, Governador ou Prefeito
em pleno uso do seu cargo, sem precisar se incompatibilizar, acaba
usando toda a máquina do Estado para fazer sua campanha,
em detrimento dos concorrentes. Como quem não recebe dinheiro
público nem para andar de bicicleta pode competir com quem
viaja com o Superavião da Presidência da República
e se serve de todo o marketing televisivo das empresas estatais
para divulgar sua imagem? Cadê o princípio constitucional
de que a lei é igual para todos, o sentimento de justiça
que deveria nortear qualquer ato público?
Bom seria que se evitasse qualquer tipo de reeleição.
A história ensina que o segundo mandato quase sempre é
pior do que o primeiro, pois “o uso do cachimbo deixa a boca
torta”. Os reconduzidos, viciados pelo poder e calejados no
trato da “coisa pública” (a “re-pública”,
torna-se coisa particular, deles e dos amigos), acabam se esquecendo
dos ideais que disseram abraçar e passam a se preocupar apenas
em manter e aumentar os benefícios que o poder lhes proporcionou,
cuidando exclusivamente da sua base eleitoral, pois ninguém
está disposto a renunciar às regalias adquiridas.
Infelizmente, a experiência da vida nos ensina que todo o
poder corrompe e vicia! Tornando-se profissionais da política,
adquirem malandragens no uso do dinheiro público, criando
uma rede de influências, que envolve familiares, apadrinhados
e interessados em negócios quase sempre ilícitos,
desviando as verbas do erário público para atender
interesses pessoais e de grupos. Portanto, apenas a proibição
da recondução ao poder poderia acabar com os “feudos”
políticos, criados por caciques que dominaram vastas regiões,
por várias gerações, os “painhos”
que ainda continuam usando o dinheiro público como se fosse
o deles, dando esmolas em troca de votos. É nefasto substituir
a justiça social pela caridade, especialmente quando ela
é feita com o dinheiro do contribuinte!
VII - Privatizar, nacionalizar, enxugar
É experiência universal de que o Estado é um
mal administrador! Fundamental, portanto, é o enxugamento
da máquina pública, reduzindo a função
governamental apenas ao que não pode ser deixado ao cuidado
exclusivo de empresas particulares. Cabe ao Estado garantir a ordem
e a justiça social, educação, saúde,
trabalho, transporte público. Para tanto, o Governo, além
de utilizar os recursos públicos provenientes dos impostos,
pode e deve recorrer ao capital particular, nacional e estrangeiro.
Mas, acima de qualquer interesse econômico, o Estado deve
zelar pelo bem estar da totalidade do povo, privatizando empresas
públicas deficitárias ou intervindo nas empresas privadas
que não estão atendendo satisfatoriamente às
necessidades da sociedade. Dois exemplos explicam nosso ponto de
vista:
1) a Telebrás, a empresa de telefonia nacional, até
poucos anos atrás, não estava dando conta do recado,
sendo muito difícil conseguir uma linha telefônica,
de valor tão alto que devia ser declarada na “Declaração
de bens” anualmente apresentada à Receita Federal.
O Governo brasileiro resolveu, então, privatizar a companhia
telefônica, possibilitando a concorrência de firmas
privadas, tendo como conseqüência a explosão da
telefonia fixa e celular, em poucos anos, barateando os preços
e permitindo seu uso também pelo povo mais humilde;
2) a Varig, companhia aérea de capital privado, mas a única
linha internacional com bandeira brasileira, foi à falência
por má administração, prejudicando de uma forma
incalculável, além dos funcionários que perderam
o emprego, todos os brasileiros que por trabalho, saúde ou
turismo precisam viajar para o exterior. As companhias internacionais,
livres da concorrente brasileira, duplicaram o preço das
passagens. E ninguém reclama contra esta vergonha nacional:
o Brasil, com mais de 180 milhões de habitantes, tem que
recorrer ao transporte aéreo de outros países que
não têm nem um décimo de sua população!
E o problema não é tecnológico, pois fabricamos
e exportamos aviões! Não era o caso do Governo brasileiro
intervir, nacionalizando a Varig e enjeitando dinheiro público
para proteger seus cidadãos? O transporte coletivo não
é obrigação do Estado? Como se vê, o
Governo tem que intervir, hora para privatizar, hora para estatizar,
conforme os interesses do seu povo. Por que nossos políticos
e burocratas não agilizam o funcionamento do dispositivo
legal das PPPs, as Parcerias Público Privadas, que permitem
a colaboração do capital público com o privado,
fazendo média entre a pouca eficiência da empresa pública
e a ganância das firmas particulares?
Fundamental é também o enxugamento da máquina
do Estado. Deveria ser reduzido ao mínimo indispensável
o número de deputados, senadores, vereadores, assessores,
secretarias, ministérios, diretorias, repartições,
comissões, presidências, lideranças etc. Atualmente,
um deputado federal tem o direito de nomear uma vintena de “assessores”.
Para fazer o quê? A função de vice de cargos
executivos e de suplente dos legislativos é realmente necessária?
Se, ocasionalmente, faltar o Presidente da República, seu
substituto natural poderia ser o Presidente da Câmara dos
Deputados, como acontece em outros países que dispensam a
figura do “vice”. Não seria uma despesa a menos?
E se um Senador, Deputado ou Vereador entrar de férias ou
ficar impedido por outro motivo, seu substituto terá condições
de fazer novas leis em pouco tempo? E adianta inventar tantas leis,
se as que já existem (e são inúmeras!) não
são postas em prática? Eliminando os empregos parasitários
e reduzindo as despesas com o serviço público, sobrariam
mais verbas para a educação, a saúde, o transporte
coletivo, a geração de trabalho produtivo. Há
cidades com duas ou mais Prefeituras, cujas Câmeras de vereadores
são apenas cabides de emprego. Se já se sustenta um
corpo diplomático caríssimo (embaixadas, consulados,
adidos culturais e comerciais) para cuidar dos negócios do
Estado, por que o Presidente da Republica tem que se ausentar constantemente,
levando caravanas em custosas viagens internacionais? É realmente
necessário gastar dinheiro público com a manutenção
de um superavião particular, quando a Presidência poderia
usar aviões da FAB ou de carreira, como fazem tantos governantes
de países bem mais ricos do que o nosso? Para que gastar
tanto dinheiro com festas ou propaganda de empresas públicas?
Órgãos governamentais não têm que competir
com firmas particulares. O desperdício do dinheiro público
é a maior afronta à miséria em que vive boa
parte do povo brasileiro!
VIII - Educação
O espetáculo mais vergonhoso que um País possa apresentar
é crianças abandonadas, vivendo de esmolas nas ruas,
em baixo de viadutos. Cuidar da primeira infância e da adolescência
é fator fundamental para a construção de uma
verdadeira cidadania, de uma Nação que possa se considerar
civilizada. A responsabilidade é tanto da Família
quanto do Estado, pois o abandono das nossas crianças está
na origem do desemprego e da delinqüência. Quando os
pais não podem, a obrigação de assistir as
crianças é do governo (municipal, estadual e federal),
garantindo creches e escolas para todo mundo que precisar e em tempo
integral.. A criança deve ser assistida, no mínimo,
oito horas por dia, para participar das aulas, fazer as tarefas
de casa, ler jornais, revistas e livros, praticar um esporte e uma
educação artística, ser bem alimentada. No
Orçamento da República, a verba destinada à
Educação deveria ser satisfatória, absolutamente
prioritária e gasta com extrema eficiência porque,
como está demonstrado pela experiência feita por vários
países emergentes, está aí que reside o futuro
de uma Nação. E não se diga que não
há dinheiro suficiente, quando os detentores do poder se
dão ao luxo de fazer obras suntuosas, usufruir altíssimos
salários ou ajudar instituições bancárias
mal administradas. Mas a responsabilidade da educação
das crianças não é apenas do Estado, é
também e sobretudo da família. É preciso acabar
com uma cultura baseada na inversão de valores: há
gente pobre que se lamenta por não ter dinheiro para comprar
o leite das crianças, mas nunca renuncia à cervejinha,
à “pitadinha”, ao churrasquinho de fim de semana.
Afinal, ninguém é obrigado a casar e a ter filhos.
Portanto, por uma questão de coerência, quem põe
filhos no mundo tem a obrigação cívica e moral
de sustentá-los e educá-los e não os entregar
aos cuidados de avós, tias ou empregadas. O Estado deveria
punir e não favorecer uma paternidade irresponsável,
pois é dever dos pais não apenas dar alimentos, mas
também carinho e educação a seus filhos. E
não basta matriculá-los numa escola. É indispensável
acompanhar o aproveitamento escolar, ajudar nas tarefas, estimular
leituras, atividades artísticas e esportivas. Está
na hora de mudarmos o conceito do nosso “herói nacional”,
o homem sem caráter e sem cultura, o carnavalesco vagabundo
e irresponsável, que engravida mocinhas e dá o fora,
tipo Sargento de Milícia ou Macunaíma da tradição
literária brasileira. Vamos propor como modelo de herói
para nossos jovens o homem estudioso, trabalhador e responsável
por seus atos.
IX - Planejamento Familiar
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura
o legado da nossa miséria”
O direito de um homem e de uma mulher terem filhos não pode
vigorar em face do direito de um filho ter uma mãe e um pai
que cuidem da sua existência. Ninguém pede para vir
ao mundo, portanto, um filho não deve nenhum favor aos pais!
Visto que a vida nos oferece bem mais sofrimentos do que prazeres,
por que ser gratos a quem nos pôs neste mundo hipócrita
e injusto? Bem disse o personagem machadiano Brás Cubas:
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura
o legado da nossa miséria”. É significativo
notar que, em todo o parto, enquanto o recém-nascido chora,
seus genitores esboçam um largo sorriso de contentamento.
É a satisfação do instinto natural da continuação
da espécie! Pois bem, a este direito deve corresponder o
dever de assistir o ser humano ao longo de toda sua existência,
mas especialmente na infância e na adolescência, quando
mais precisa de ajuda, pois é quando se forma sua personalidade.
Apenas a pais (naturais ou adotivos), que realmente educam e se
sacrificam para lhes propiciar uma vida decente, os filhos devem
respeito e gratidão! Infelizmente, no Brasil e em outros
países com grandes bolsões de miséria, há
gente que põe seres humanos no mundo como se fossem coelhos
ou filhotes de cadelas, “ao Deus cria”, sem as mínimas
condições econômicas e psíquicas para
cuidar do desenvolvimento satisfatório do fruto de um ato
de amor. Ainda hoje, num mundo que se acha civilizado, há
camponeses que se orgulham de ter parido dúzias de filhos!
Como se isso fosse um mérito! Se pai verdadeiro é
quem educa, como um casal (ou, pior, uma mãe solteira), especialmente
se os dois precisarem trabalhar, pode cuidar decentemente de muitos
filhos? Não há crime maior do que colocar um ser humano
neste injusto mundo em que vivemos, sem ter as condições
necessárias para garantir-lhe casa, comida, saúde,
educação, profissão. A responsabilidade paterna
é insubstituível e o desajuste de uma criança
abandonada pelos pais se reverte em incalculável prejuízo
para a coletividade toda, pois é aí que se encontra
a origem da marginalidade.
E como nossos governantes municipais, estaduais e federais respondem
a esta fundamental questão de cidadania? Com o silêncio!
Os políticos, pelo medo de perderem os votos das grandes
camadas religiosas, induzidas a não usar anticonceptivos
por motivos transcendentais, fazem vista grossa e não apresentam
nenhum plano eficiente de controle de natalidade. Através
dos programas assistenciais do salário-família, da
bolsa-escola, da cesta básica, da fome-zero, do sopão
etc., formas diferentes do único programa que realmente interessa
aos políticos, o pró-reeleição, o governo
estimula ainda mais a procriação irresponsável,
pois há miseráveis que põem mais filhos no
mundo para ganharem, para cada criança, uns trinta reais
a mais por mês. E os políticos demagogos, para angariarem
votos, ainda tiram fotos sorridentes com mulheres pobres e desdentadas
com bebês no colo e rodeadas por pencas de crianças.
Um tal absurdo ofende a inteligência e a sensibilidade humana!
Enquanto nos países mais civilizados o índice demográfico
é quase zero (nascem tantos cidadãos quantos morrem),
no Brasil se chega a 2,3%, com a agravante de que a maior superpopulação
se dá nas camadas mais miseráveis. É fácil
constatar que quem teria condições econômicas
para sustentar muitos filhos tem apenas um filho ou dois, no máximo,
e quem não pode criar um sequer põe no mundo uma dúzia
de descendentes. Com a inevitável e injusta conseqüência
social de que alguém será obrigado a cuidar dos filhos
de outros! Urge educar o ser humano a assumir a responsabilidade
por seus atos, sem transferir o ônus de sua culpa para outra
pessoa, comunidade ou Estado! Quem é “o pai da criança”
que cuide dela e, se não o fizer, deveria ser-lhe proibido
pôr outros filhos no mundo. A vasectomia e a laqueadura é
o meio mais eficaz para reduzir a ignorância, a miséria
e a desigualdade social em toda a face da Terra, pois o controle
da natalidade é fundamental para evitar a marginalidade e
os conflitos étnicos, provocados por jovens que, incultos
e despreparados, abandonam suas cidades em busca de trabalho em
outras regiões ou em países diferentes.
X - Estado laico
“Até que ponto a religião pôde induzir
a cometer maldades!”
O problema da ingerência da Igreja no governo do Estado é
uma praga antiga e de difícil extinção, pois
se trata de uma ação permanente e subliminar exercida
sobre a grande massa do povo mantido na ignorância. O sentimento
religioso, conatural ao ser humano na sua ânsia de obter respostas
aos problemas fundamentais da existência (Quem somos? De onde
viemos? Para onde iremos após a morte, Por que sofremos e
morremos?), é manipulado por representantes de igrejas e
seitas que, prometendo a felicidade num hipotético outro
mundo, se enriquecem às custas da credulidade da grande massa,
“fazendo a cabeça” de seus fiéis. Através
de pregações transcendentais, que projetam a felicidade
num outro mundo, os credos incutem nos jovens e nos adultos incultos
o sentimento do pecado e do castigo infernal, que induzem à
mortificação do corpo para a salvação
da alma. Pior é a crença na ortodoxia (a “fé
verdadeira”) que leva à guerra entre fiéis de
diferentes religiões: cada seita, achando-se detentora da
verdade, tenta destruir a fé de outra, considerada falsa
e mentirosa. Chega-se a matar e se matar em nome de Deus. Já
o poeta latino Lucrécio, no 1° séc. a.C, descrevendo
o sacrifício de Ifigênia, conduzida à morte
pelo próprio pai Agamenão para atender ao capricho
da deusa Diana, exclamara: “Até que ponto a religião
pôde induzir a cometer maldades!”
A História da Cultura no Ocidente, além de testemunhar
inúmeras e sangrentas guerras religiosas, nos ensina que
toda forma de Teocracia (governo exercido pela autoridade religiosa)
apresenta características peculiares: obscurantismo, atraso
de vida, hipocrisia, miséria, sentimento de culpa. Para comprovar
o que estamos afirmando, apenas uma pergunta: alguém poderia
citar o nome de algum homem ilustre, filósofo, poeta, cientista,
estadista, artista ou esportista, que tenha vivido na Alta Idade
Média, entre o séc.V (queda do Império Romano
do Ocidente e início do poder do Cristianismo) e o XI (pré-Renascença),
quando a Europa era dominada pelo Catolicismo? É impressionante
verificar como o domínio religioso conseguiu paralisar por
mais de seis séculos (por mais de seiscentos anos!) as atividades
culturais e o progresso econômico e social de toda a Europa!
Que diferença com a época anterior, o período
clássico da Grécia quando, a religião politeísta
não intervindo na vida política, Atenas conseguiu
lançar as bases da Cultura Ocidental, produzindo a Democracia,
a Filosofia, o Teatro, a Poesia, as Artes plásticas, a Olimpíada,
ao longo de apenas um século, o V a.C. A tese do malogro
de todo governo religioso pode ser confirmada por um simples olhar
no mundo atual: os povos e as regiões, onde as crenças
são mais vividas, apresentam o menor índice de desenvolvimento
social e cultural. É lá que se alimentam os fanatismos,
o absolutismo, o terrorismo, a ignorância, a injustiça
social, a corrupção, a miséria, o conceito
de “pecado”, as várias doenças endêmicas
que se espalham pelo planeta Terra. Nesses territórios, a
Ciência e o Bom Senso não têm vez.
Felizmente, o Brasil é um país constitucionalmente
laico e tolerante, permitindo o culto de qualquer religião,
sem escolher uma como “oficial”. Mas, enquanto o Estado
respeita o sentimento religioso de seu povo, concedendo completa
liberdade de culto, a Religião, contrariamente, não
respeita as necessidades do Estado laico. As várias igrejas
e seitas religiosas continuamente estão invadindo o direito
civil, impondo a seus fiéis normas éticas que impedem
o desenvolvimento social. Em vista de que o Estado brasileiro não
é confessional, deveria ser proibida a candidatura a cargos
públicos de padres, pastores, bispos, aiatolás ou
rabinos. Como também não deveria se permitir o ensino
de nenhuma religião nas escolas públicas, nem propaganda
política por pessoas ligadas a entidades que professam qualquer
tipo de crença. Nenhuma ideologia religiosa pode influir
na solução de graves problemas sociais, como o planejamento
familiar, a pesquisa científicas com células-tronco,
transgênicos, aborto, eugenia, eutanásia, pena de morte,
prisão perpétua, trabalhos forçados etc. Tais
problemas devem ser resolvidos pela sociedade civil, com base no
princípio democrático da vontade da maioria, sem a
interferência de preconceitos religiosos.
Enquanto o Estado gasta milhões numa campanha nacional para
prevenir o povo contra a AIDS, a Igreja proíbe o uso de camisinha
e de outros preservativos ou anticoncepcionais; enquanto o Estado,
para respeitar a liberdade individual, permite o divórcio
e o convívio entre homossexuais, a Igreja condena a penas
eternas quem faz sexo fora do matrimônio. Enfim, o cidadão
deve obedecer a quem ou a quê? Ao instinto natural da busca
do prazer neste mundo ou a uma ideologia religiosa que lhe proíbe
ser feliz nesta terra para alcançar a beatitude no céu?
A crença na existência de uma alma separada do corpo
e de uma vida transcendental é uma questão de fé
e de alçada individual. Seus corolários não
podem atingir o tecido social como um todo. A única norma
moral que deveria reinar numa sociedade que se quer civilizada é
a do respeito: a si próprio, ao seu semelhante, à
natureza, ao bem público. Nossa vida seria infinitamente
mais feliz, se todo o mundo adotasse este único princípio
ético: “faça o que quiser, desde que não
faça mal a ninguém”!
XI - Saúde e Previdência
O Sistema Unificado de Saúde (SUS) e de Aposentadoria e Pensões
(INSS), atualmente em vigor no país, infelizmente, não
está sendo satisfatório. Tanto é verdade que,
quem tem alguma possibilidade econômica, recorre a convênios
médicos, hospitalares e odontológicos privados e a
previdências complementares para tratar do seu bem estar e
garantir uma velhice decente. A maior parte do dinheiro arrecadado
pelo INSS se perde nos meandros da burocracia estatal, sendo muito
mal aplicado. A pergunta é: se o Sistema Único de
Saúde e de Aposentadoria, gerido pelo Estado, não
está funcionando de uma forma eficiente, por que o cidadão
é obrigado a pagar por uma prestação de serviço
insatisfatória? Por que tem que duplicar a despesa, pagando
duas instituições, a pública e a privada? Urge
acabar com a centralização do sistema previdenciário
e de saúde e fomentar assistências médicas e
previdências particulares e regionalizadas. Ao Estado caberia
apenas o ônus da vigilância e da supervisão,
como órgão regulador. Cada dono de empresa ou empregador
deveria ter a responsabilidade de cuidar da saúde de seus
funcionários ou diretamente, se for uma empresa grande, ou
indiretamente, através de convênio com instituições
habilitadas. O dinheiro, que atualmente é recolhido pelo
empregado e pelo empregador, em lugar de ir para o INSS, seria destinado
diretamente ao convênio escolhido pelos trabalhadores e pelo
patrão, todo instituto podendo ser substituído por
outro, caso não funcionasse de uma forma satisfatória.
Ao Ministério da Saúde e às Secretárias
estaduais e municipais caberia o ônus de atender apenas aos
desempregados e à população mais carente, através
de hospitais públicos, bem como a prevenção
e o tratamento de doenças endêmicas, a distribuição
de remédios genéricos para as pessoas pobres, junto
com a supervisão dos convênios particulares.
O mesmo poderia acontecer com a Previdência Social: todo empregador,
após consultar seus funcionários, poderia escolher
o “fundo de pensão” em que seriam depositados,
mensalmente, os recursos arrecadados. Ao mudar de emprego, o trabalhador
teria carimbado na sua carteira os anos e os meses pagos, podendo
transmigrar para outro fundo sem perda alguma. Chegado o tempo da
aposentadoria, ele receberia um provento proporcional aos anos pagos
e à percentagem depositada, sem limitação de
teto e sem distinção entre quem trabalhou para o Estado
ou para uma empresa privada, abolindo-se qualquer forma de privilégio.
O princípio da “meritocracia” estimula o homem
para o trabalho. É justo que, como quem mais plantou colhe
mais, assim quem mais contribuiu tenha uma melhor aposentadoria.
Essa é a verdadeira “justiça social”!
E, mais uma vez, ao governo caberia apenas amparar uma minoria que,
por motivos de doenças, subdesenvolvimento ou absoluta falta
de recursos, não conseguiu acumular o suficiente para gozar
de uma aposentadoria decente.
XII - Trabalho e Meritocracia
“Um dia trabalharei. E dentro de vinte e cinco ou trinta anos,
no máximo,
cada homem trabalhará. Cada homem!”
Esta fala do barão Nikolai Tusenbach, personagem da peça
As três irmãs, de Anton Tchekhov, representada em 1901,
foi profética, pois, 16 anos depois, estourou a Revolução
Bolchevique na antiga União Soviética, obrigando todos
os homens a produzir bens para a coletividade. Pena que os privilégios,
tirados da classe nobre da época czarista, reaparecerem ao
longo do domínio dos burocratas soviéticos, levando
a revolução comunista ao fracasso. Na verdade, o trabalho
é um direito e um dever fundamental do ser humano, sendo
a única atividade que realmente nobilita nossa existência.
“Direito”, porque, se não encontrar um emprego
decente, como uma pessoa adulta pode sustentar a si e a sua família?
Mas é, sobretudo, um “dever”, pois, se o homem
não se preparar para um ofício, dificilmente arrumará
um bom emprego. Toda criança, desde cedo, deve ser estimulada,
pela Família e pelo Estado, a pensar no seu futuro, a se
perguntar “o que vou fazer quando crescer”? Completado
o ensino médio, se não tiver vocação
pela intelectualidade e não quiser ou não puder fazer
um curso universitário, deve escolher uma profissão,
não importa qual. Todo o trabalho torna-se nobre, quando
é realizado por competência e amor. Quem adquirir um
“saber fazer” alguma coisa, como ensina o preceito britânico
do know how, nunca estará desempregado por muito tempo.
Acontece que alguns jovens, especialmente os que não recebem
a atenção dos pais, se acostumam a uma forma leviana
de vida, apenas curtindo baladas, “ficando” com namoradas
e vivendo encostados em familiares. Quando acordam para a vida,
já adultos, entram em desespero, pois percebem que não
conseguem competir com quem se preparou. Pagam, assim, o preço
da infração da lei cósmica, que impossibilita
a colheita sem plantio. E, se plantou vento, irá colher tempestade!
Quem foi vagabundo na juventude, dificilmente vai ter uma boa velhice!
A verdade é que muita gente não procura “trabalho”,
mas “emprego”. É triste constatar que esta tendência
já se tornou um fato cultural no nosso país, pois
o exemplo vem de cima. Muita gente vive mamando nas tetas do governo
sem produzir coisa alguma. Vários funcionários públicos
recebem salários nababescos, além de inúmeras
mordomias, fazendo quase nada, enquanto outros servidores, que realmente
trabalham, ganham uma mixaria. E a grande massa popular reelege
políticos indiciados e processados por corrupção,
com o único fim de receber uma esmola ocasional, preferindo
a caridade ao direito a ao dever do trabalho.
No Brasil, a injustiça social, especialmente a salarial,
é simplesmente pavorosa: o mesmo governo, que paga um mínimo
de 350 reais, autoriza o pagamento de 35.000 ou mais para altos
burocratas. É absurdo constatar que um ser humano acaba recebendo
um salário cem vezes maior do que outro! A desproporção
é descomunal, ofendendo a inteligência e a dignidade
humana! Em alguns países (especialmente da Escandinávia),
cultural e economicamente mais desenvolvidos, a proporção
não pode passar de quatro vezes: se o salário mínimo
é de mil dólares, o governo não vai pagar mais
do que quatro mil para qualquer funcionário público.
Urge, portanto, alterar nossa Constituição, colocando
dispositivos que proíbam legiferar em causa própria,
atribuindo-se benefícios de uma forma direta ou indireta.
A primeira medida deveria ser a proposta de uma emenda constitucional
que vinculasse o salário mais alto ao mínimo, estipulando
uma quantidade de salários para cada categoria profissional,
permitindo-se o aumento apenas por produtividade comprovada e não
por anos de serviço. Em ocasião da preparação
da última Constituição brasileira, enviei a
proposta de um artigo que proibisse o pagamento de salários
(incluindo todos os subsídios) superiores a dez salários
mínimos. A proposta não foi sequer contemplada pelos
Constituintes, pois feria seus bolsos. Enquanto for permitido aos
parlamentares legislar em causa própria, nunca haverá
justiça social neste país. É preciso que, finalmente,
todos os homens de bem deixem de ser coniventes ou omissos, iniciando
uma luta contra o Estado de Iniqüidade que se instaurou no
Brasil. O que estão fazendo as forças vivas da Nação:
a Ordem dos Advogados, os Sindicatos, as Uniões dos Estudantes,
jornalistas, artistas, cientistas, as associações
civis e religiosas preocupadas com o bem estar do povo brasileiro?
. Com o dinheiro dos nossos impostos, gasto indevidamente para pagar
supersalários a marajás e satisfazer o egoísmo
e a vaidade dos políticos, quanta melhoria poderia ser feita
nas áreas da educação, da saúde, do
transporte público!
Quem sabe, um dia chegaremos a um verdadeiro “Estado de Direito”,
onde a lei fosse igual para todos, na realidade e não apenas
no papel; onde cada qual fosse remunerado conforme o mérito,
o trabalho realmente efetuado, com a abolição de qualquer
forma de privilégio. Alguém poderia nos dizer para
que serve o cargo de “Delegado de Ensino”, ocupado por
nomeação política? Não bastam o Diretor
da Escola e o Secretário da Educação para orientar
as atividades docentes e discentes? Para que tantos pedagogos, coordenadores,
orientadores educacionais, assistentes sociais, psicólogos
nas escolas públicas? Com tanto dinheiro gasto para intermináveis
reuniões de estéreis “planejamentos”,
poderia se remunerar melhor o professor que realmente trabalha.
Estes são apenas alguns exemplos dos inúmeros cargos
burocráticos de quase nenhuma utilidade, criados como cabides
de empregos para gente envolvida com a política. Para que
tantos ministérios, secretarias, cargos públicos por
indicação, se não para acomodar partidários
e familiares de políticos, que não procuram “trabalho”,
mas apenas “emprego”?. É triste constatar que
esta tendência já se tornou um fato cultural no nosso
país, pois a grande massa popular reelege políticos
indiciados e processados por corrupção, com o único
fim de receber uma esmola ocasional, preferindo a caridade ao direito
a ao dever do trabalho.
XIII - Transporte coletivo
Os últimos governos que presidiram o Brasil, ao sucatarem
as ferrovias, cometeram crimes de incalculáveis conseqüências
econômicas e ecológicas. E ninguém pagou ou
vai pagar por isso, porque os males cometidos contra a coletividade
ficam sempre impunes. Enquanto as nações mais civilizadas
aprimoraram o transporte ferroviário, construindo locomotivas
cada vez mais velozes, superando os duzentos quilômetros por
hora, para o transporte de pessoas e cargas, o Brasil andou na marcha
à ré da evolução tecnológica
neste setor vital para a economia do país e sucatou as linhas
ferroviárias existentes para privilegiar as estradas de rodagem,
meio de transporte mais lento, mais caro, mais perigoso e extremamente
poluente. Devido à imensidão territorial do Brasil,
o transporte ferroviário, junto com o aéreo e o fluvial,
seria o mais adequado para cobrir as longas distâncias e por
usar a eletricidade, que é uma energia nossa, mais limpa
e mais econômica.
O que explica o sucateamento das ferrovias estaduais e federais?
Anos atrás, a imprensa noticiou a apresentação
de um projeto de “trem-bala” entre São Paulo
e Rio de Janeiro, que faria o trajeto entre as duas maiores capitais
em apenas duas horas. Tecnologia japonesa, capital internacional,
mão de obra brasileira, exigindo apenas dez anos de exploração
para recuperar o dinheiro investido. Em Brasília, conforme
então vociferado, membros do Congresso Nacional boicotaram
o projeto, atendendo ao lobby das companhias de automóveis,
de petróleo, de pneus, de autopeças, da ponte aérea,
que se sentiram prejudicadas em seus interesses corporativistas.
A resposta à pergunta acima é a mesma que explica
a origem de todas as desgraças nacionais: a corrupção
da classe política, que apóia quem lhe dá dinheiro
ou favores por baixo do pano, prejudicando os superiores interesses
da maioria do povo. A classe política, fechada num egoísmo
imediatista, não se preocupa com o futuro de nossos filhos
e netos. Onde a preferência para o transporte rodoviário
nos está levando? As estradas de rodagem já não
suportam mais a enorme carga transportada pelos caminhões
do Norte ao Sul do país, esburacadas em sua maioria. Nossas
cidades estão cada vez mais entupidas de automóveis,
com trânsito congestionado e poluição insuportável,
provocando stress e doenças respiratórias.
Para melhorar o transporte coletivo devem ser tomadas umas medidas
imediatas e outras em longo prazo. Urgentemente, é preciso
socorrer a viação aérea, para evitar mais colapsos,
acabando com o triste espetáculo de velhos e crianças
dormindo no chão de aeroportos. Além da modernização
de equipamentos e da preparação de mais controladores,
é preciso resolver o problema da falta de uma companhia aérea
de bandeira nacional, de capital misto, tipo PPP (Parceria Pública
Privada). É uma vergonha que um país com mais de 180
milhões de habitantes, construtor e exportador de aeronaves,
não tenha uma linha aérea internacional. Os brasileiros
são obrigados a utilizar companhias estrangeiras, que cobram
mais caro, não falam nossa língua e servem comidas
exóticas. Nas linhas nacionais, o governo poderia baratear
as passagens aéreas por isenção de impostos
e subsídios. Fundamental, a médio e em longo prazo,
é dar prioridade ao transporte ferroviário, quer para
longas distâncias, quer para a condução urbana.
Todas as grandes cidades de países desenvolvidos fazem largo
uso do metrô, que pode ser subterrâneo, aéreo
ou ao nível do solo, com faixas exclusivas para locomotivas.
Um vagão de metrô transporta mais gente do que dúzias
de automóveis, e de uma forma mais rápida, mais segura,
mais econômica e menos poluente e estressante. É só
fazer uma grande rede que conecte os principais bairros de uma cidade,
como existe em Londres, em Paris, em Tókio. Lá, poucas
pessoas usam o carro particular diariamente para ir trabalhar. Se
não tomarmos providências agora, nossos filhos e nossos
netos herdarão o caos em termos de transporte, pois, a cada
dia e no Brasil todo, milhares de carros e caminhões novos
invadem rodovias e ruas e o espaço físico não
se dilata. Alternativa paralela seria o transporte fluvial, favorecido
pela grandiosidade de nossos rios. Não seria de grande benefício
para o país todo melhorar os portos existentes, criar novos
ancoradouros, incentivar a construção naval? Será
que nossos políticos pensam nisso? Visto que não,
por que reelegê-los?
Salvatore D’Onofrio (saldo1@ig.com.br)
Professor da UNESP e Autor da
PEQUENA
ENCICLOPÉDIA DA CULTURA OCIDENTAL |