Artigos Publicados nos Jornais Diário da Região e BOM DIA (São José do Rio Preto)

Cultura Essencial


O Mito de EROS “Erótica é a alma” (Adélia Prado) 11/09/2006 Eros é uma das “Divindades Primordiais”, aquelas que pertencem à “pré-história” da Mitologia grega. Segundo o pensamento órfico (de Orfeu, figura mítica que deu origem a uma doutrina filosófica e religiosa), Eros teria nascido do Ovo primordial (o Caos), engendrado pela Noite, cujas metades se separaram, dando origem à Terra e ao Céu. Ele é o princípio da atração universal, que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Eros é a força que assegura a coesão interna do Cosmos e a continuidade da vida na terra. Para Platão, ele seria um dáimon, uma força espiritual intermediária entre a divindade e a humanidade. Na cultura romana, Eros é confundido com Cupido, filho de Vênus (a deusa do amor) e de Marte (o deus da guerra), representado como uma criança alada, nua, armada com arco e flechas ou com espada e escudo, símbolo da paixão arrebatadora. Acontece que, com o passar do tempo, se desfigurou o sentido etimológico da palavra “erótico”, reduzindo o conceito a um tipo de satisfação carnal proibida (“sexo sem pecado é como ovo sem sal”, diria o cineasta Luís Buñuel), à nudez, à sacanagem, aos filmes pornôs. Confundiu-se Eros com Priapo, o deus do sexo, representado com um falo enorme, protetor dos reprodutores e símbolo da procriação. O Eros verdadeiro é o deus do amor no seu sentido integral, que engloba corpo e alma. A atração puramente física é animalesca e não humana. É apenas o bicho que tem o período do cio. O homem e a mulher se amam (ou deveriam se amar!) sempre e em todos os lugares por uma comunhão de sentimentos que transcende o aspecto corporal. O erotismo, que verdadeiramente funciona e que faz perdurar a atração recíproca por longo tempo, está no olhar apaixonado, na admiração que o amante sente pelas qualidades físicas e espirituais que consegue enxergar na pessoa amada. O erotismo, que realmente e de uma forma mais duradoura estimula o desejo, se encontra na poesia lírica, na pintura, na dança, nos filmes sentimentais, na arte em geral, pois supera o nível do real e penetra no mundo da fantasia, do sonho, do vago sentimento do inacessível. Por esse prisma, os Cantos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente, no claro-escuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato do amor como se fosse sempre pela primeira vez. Como diz a poeta Adélia Prado, “erótica é a alma”! Só que conhecer o espírito de alguém é bem mais difícil do que lhe conhecer o corpo. Manuel Bandeira nos oferece uma reflexão interessante a respeito: “Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque corpos se entendem; as almas, nem sempre”. E, sobre a renovação do desejo erótico, esta bela imagem do poeta Mário Quintana: “amar é mudar a alma de casa”. Enfim o erotismo, entendido como prática do amor num sentido bem geral, é onipresente a qualquer atividade humana bem sucedida. A escritora Lygia Fagundes Telles afirma acertadamente: “Vocação é ter a felicidade de ter como ofício a paixão”. Mas é a escritora existencialista francesa, Simone de Beauvoir, companheira do grande poeta-filósofo Jean-Paul Sartre, quem melhor define a essência da relação carnal: “O erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a sociedade”.

Fausto (2) 04/09/2006 Continuando o estudo sobre o mito de Fausto, o homem que vendeu sua alma ao demônio, passamos a expor um dos sentidos possíveis da peça de Goethe. O protagonista representa o ideal romântico do homem que, insatisfeito com a sua condição de mortal, recorre a qualquer meio para realizar seu sonho de atingir a felicidade. Só que o processo se desenvolve pelo modo irônico: chegar a Deus pela ajuda do Demônio; ser feliz renunciando à própria alma; conquistar um amor angelical mediante trapaças diabólicas. A renúncia à alma imortal em troca de bens materiais só poderia resultar numa degradação. Daí a conseqüência trágica da loucura de Margarida, vítima de sua paixão inocente. Talvez a beleza desta peça de Goethe esteja mesmo na representação do mundo de uma forma dialética: de um lado, a tese do amor puro, angelical, personificado em Margarida; de outro lado, a antítese do mundo sinistro, diabólico, de Mefistófeles, símbolo da sedução e do encanto dos desejos carnais; atraído pelas duas visões de vida contrárias, está no meio, como síntese, o personagem Fausto, amante de Margarida e amigo de Mefistófeles, símbolo da alma romântica constantemente balançando entre o ideal do sonho e o grotesco da vida real. A insatisfação do homem com a sua condição de ser contingente, nascido para a morte e para a dor, tendo aspirações infinitas e realizações efêmeras, já criara mitos belíssimos na cultura hebraica e pagã. Vejam-se, por exemplo, os mitos bíblicos de Adão, que comeu o fruto proibido, e de Caim, que pecou contra Deus matando seu irmão; ou os mitos gregos de Prometeu que roubou o fogo divino e de Ícaro que queria alcançar o Céu voando com asas de cera. Trata-se de idealizações da revolta do homem contra as leis do universo, na tentativa de se igualar à divindade, como fizeram os mitológicos Titãs, que lutaram contra o todo-poderoso Júpiter. Na cultura moderna, o personagem histórico-mítico de Fausto surge na época do Barroco, quando a alma européia acusa o conflito entre o gozo dos prazeres da vida, herança do Renascimento, e a ameaça de penas infernais sancionadas pelo Tribunal da Inquisição da Contra-Reforma católica. As sucessivas gerações românticas, especialmente nos países anglo-saxões, idealizam a figura de Fausto, fazendo dele o arquétipo do “jovem colérico”, revoltado contra a hipocrisia da vida burguesa, procurando refúgio na bebida, na arte, no amor, na morte. O lado positivo do “homem faustiano” é a figura ideal da humanidade moderna, que sonha com a liberdade e o progresso, libertando-se de qualquer tipo de preconceito. Do protótipo do homem faustiano ao modelo do homem nietzschiano o passo é breve. Outro alemão, o filósofo F. Nietzsche (1844-1900), negando qualquer forma de transcendência divina, exalta o poder da vontade humana contra o determinismo biopsíquico e religioso. Mas o mito de Fausto, além de qualquer especulação de ordem filosófica ou religiosa, sobrevive na nossa realidade cotidiana, revelando uma postura ética recorrente. A lenda do homem que vende sua alma ao diabo é uma denúncia de todas as formas de desonestidade. No “dando que se recebe” se realiza uma troca entre dois valores: o imediato e individual que esmaga o futuro e social. Vende sua alma ao diabo o político que se enriquece com o dinheiro público, que deveria ser destinado a escolas e postos de saúde; o banqueiro que, com sua pratica de agiotagem, se alimenta das lágrimas do endividado; o homem que não assume a paternidade; a mulher que não dá assistência a seus filhos; qualquer pessoa, enfim, que, cedendo a determinismos psicológicos, é levada a viver egoisticamente, praticando maldades contra seus semelhantes.

O mito do Dr. Fausto (28/08-2006) (o homem que vendeu sua alma ao demônio) A tradição cultural européia registra, com o nome de Doutor Fausto, um ser humano que existiu no mundo real, tendo vivido na Alemanha entre 1480 e 1540. Ele acabou sendo qualificado por historiadores como um pseudomédico, humanista, praticante de alquimia e de magia, audacioso aventureiro, milagreiro e charlatão, luxurioso e homossexual. Logo após a morte, sua singular personalidade foi envolta por lendas, especialmente as relacionadas com um pacto que ele teria estabelecido com o Diabo. Na feira de Frankfurt, em 1587, apareceu um escrito anônimo, Historia Von D.Johann Fausten, que será a fonte das posteriores obras científicas e literárias sobre esse personagem. Mas foi com o poema dramático de J.W.Goethe (1749-1832), o maior escritor romântico da Alemanha, que a figura de Fausto se tornou mundialmente famosa. O drama Urfaust (O Primeiro Fausto: 1808) é composto de uma parte introdutória (Dedicatória, Prólogo no teatro e Prólogo no céu) e de vinte e seis cenários, cada qual com um título, como se fossem pequenos capítulos (Noite, Em frente à porta da cidade, Fausto e Wagner etc.). Resumimos o assunto do longo poema goethiano, falando apenas dos três personagens principais: Fausto, Margarida e o diabo Mefistófeles. Lá no céu, Deus (o Senhor) e o Diabo (Mefistófeles) fazem uma aposta a respeito do comportamento, lá na terra, do protagonista Fausto, jovem irrequieto e amante dos prazeres da vida, mas atormentado pelo desejo de tudo conhecer e pela aspiração ao infinito. O Senhor diz a Mefistófeles que logo Fausto, pelas suas qualidades intelectuais e espirituais, conseguirá a Luz Divina, que lhe resolverá todas as dúvidas. O Diabo contesta e desafia Deus, pedindo-lhe permissão para descer na terra e seduzir o jovem, oferecendo-lhe bens materiais em troca de sua alma imortal. Aceito o desafio, Mefistófeles se encarna num estudante andarilho e aparece a Fausto, fazendo-lhe a proposta da troca da sua alma por todos os prazeres desejados. O jovem aceita o pacto, dizendo: “Se eu estiver com lazer num leito de delícias, não me importa morrer...Quero firmar o acordo” Cumprindo o prometido, Mefisto leva Fausto numa adega para tomar vinho e na tenda de uma feiticeira que lhe dá um elixir para reforçar seu erotismo. Logo se apaixona pela belíssima Margarida, mocinha de quinze anos, que não lhe dá bolas. Mefisto explica a Fausto que o diabo não tem poderes sobre uma jovem virgem e honesta, mas que nenhuma mulher resiste a presentes caros. Um cofre cheio de jóias preciosas acaba amolecendo o coração de Margarida, que ministra um soporífero a sua mãe e passa a noite com o namorado. Mas logo o pecado é castigado, dando origem a uma serie de desgraças. Seu irmão Valentim, jovem soldado, para vingar a honra da família, desafia Fausto num duelo, mas acaba sendo morto, pois o sedutor conseguira a ajuda do diabo. O sentimento de culpa pela morte do irmão e pela gravidez inesperada deixa Margarida num estado de prostração e de loucura. Pela sua fala alucinada, na cela de uma prisão, o espectador ou o leitor da peça fica sem saber se é verdade, ou pura fantasia, a notícia de que ela matara a mãe e o filhinho, pois ela não reconhece mais sequer a pessoa do próprio amante, sempre acompanhado por Mefisto. Margarida sente horror à presença do Diabo e prefere entregar-se à Justiça de Deus, suplicando pela salvação da sua alma. Vozes vindo do Alto anunciam que ela está salva. Fausto e Mefistófeles desaparecem sobre corcéis na fria madrugada. Cai o pano. Na próxima semana falaremos sobre o sentido desta peça de Goethe e da atualidade do mito de Fausto.

Arte como conhecimento (21/08/2006) “A arte nasce da dor, como a pérola” (Monteiro Lobato) Conforme dissemos no artiguinho da semana passada, a Arte, a par da Filosofia, da Ciência e da Religião, é uma das quatro macroformas do conhecimento do homem e da realidade que nos circunda. O que distingue o saber artístico de outro tipo de conhecimento é o meio do que se serve: enquanto a filosofia opera através do pensamento reflexivo, a ciência faz uso da observação e experimentação e a religião da crença ou fé, a arte utiliza a “ficção”, isto é, a fantasia, a imaginação. Mas o “fictício” poético não quer dizer mentiroso. Pelo contrário, a finalidade da arte é manifestar verdades mais profundas, encobertas pelas convenções éticas e pelos dogmas religiosos. Num sentido amplo, o termo arte indica vários tipos de atividades ou habilidades. Falamos da arte de pescar, de amar, de jogar futebol, de confeccionar objetos etc., tendo algo em comum com técnica e artesanato. Como ocorre em todas as culturas primitivas, a atividade artística está profundamente ligada às necessidades cotidianas, evidenciando-se seu fim utilitário. Assim, por exemplo, o desenho da figura de um certo animal num rochedo estava a indicar que aquela era uma zona de perigo. Os antigos romanos, durante as festas comemorativas das colheitas, ofereciam aos deuses um prato cheio (satura lanx) dos primeiros frutos da terra, narrando mitos, cantando, dançando, tocando rústicos instrumentos musicais. Nos primórdios de qualquer povo, existe sempre uma mistura das várias formas artísticas. Só mais tarde, com o progresso civilizacional, cada arte começa, aos poucos, a adquirir sua especificidade, a música se separando da poesia, o romance do teatro, a imagem fixa (pintura) da imagem móvel (cinema), renovando-se continuamente as formas de arte. A interdependência das várias modalidades, estudada por Étienne Souriau na famosa obra A correspondência das artes, hoje é claramente percebível no teatro da Ópera, onde se conjugam, no mesmo espetáculo, a história romanesca, o canto lírico, a música orquestrada, a representação dramática, a cenografia, a sonoplastia, os efeitos luminosos, a relação ator / personagem e autor / diretor. A arte, mais ainda do que o esporte, em qualquer de suas formas, visa sempre superar os limites humanos do tempo e do espaço, buscando o infinito e o absoluto. Como afirmou Pablo Picasso, “na arte não existe passado nem futuro; a arte que não está no presente não existirá nunca”. Outra característica fundamental do objeto estético, salientada pelo grande pintor espanhol, é sua receptividade: “um quadro vive apenas através de quem o contempla”. A arte já foi definida como “a estética do sublime”. Para o filósofo alemão F.Nietzsche, ela é mais gratificante do que a ciência: “temos a arte para não morrer pela verdade”. Se nosso destino comum é a velhice, a doença, a morte e o esquecimento, o artista, mais do que o cientista, o filósofo ou até o homem religioso, alimenta-se da esperança da sobrevivência. A pessoa do autor morre, mas a personagem por ele inventada é eterna: Machado se foi, enquanto Capitu permanece viva! O poeta latino Horácio tinha plena consciência da importância da sua arte, quando afirmou: “erigi para mim um monumento mais duradouro do que o bronze”. A função mais importante da arte é desnudar o que está coberto, tentar colocar ao nível de superfície o que está nas profundezas da alma. E faz isso de uma forma quase imperceptível. Conforme a bela imagem de Carlos Drummond de Andrade, “o Romance é a arte de destelhar casas sem que os transeuntes percebam”. Nossa sociedade seria outra, se todas as crianças fossem educadas, desde pequenininhas, a cultivar artes e esportes, em lugar do abandono nas ruas!

Saber é preciso...(14-08-2006) “Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem superficial que nos esmaga” (Lya Luft) O homo sapiens distingue-se de outros primatas (chimpanzés, orangotangos e gorilas) pelo desejo da descoberta, pela curiosidade, por possuir a capacidade de conhecer o mundo em que vive e ter consciência de suas sensações e de seus desejos, de seus sofrimentos e de seus prazeres, de seus direitos e de seus deveres. Portanto, o que deveria ser fundamental no homem é o exercício constante da faculdade de observar atentamente a realidade circundante, questionar os valores impostos pela sociedade, evitar os estereótipos lingüísticos e ideológicos, raciocinar com sua própria cabeça, além da doxa, da opinião comum, pois, como dizia o saudoso Nelson Rodrigues, "toda a unanimidade é burra". Mas, infelizmente, o homem costuma renunciar à prática da reflexão, do bom-senso, do equilíbrio, da coerência. Vivemos o dia-a-dia sem nos dar conta do absurdo existencial. Falamos por automatismos, usando palavras e frases sem sentido, cultivamos hábitos nocivos a nossa saúde, seguimos rituais religiosos com pouca fé e muita hipocrisia, escolhemos políticos que não atendem aos interesses da coletividade, promulgamos leis injustas ou impraticáveis, estabelecemos padrões de comportamento que causam nossa infelicidade, pois não conseguem atingir o equilíbrio entre a necessidade da satisfação dos instintos individuais e as exigências da vida em sociedade. Enfim, o que reina soberana é a burrice, o que levou o filósofo francês Renan a afirmar: “a única coisa que nos dá a idéia do infinito é a imbecilidade humana”! A teria do conhecimento ou a epistemologia (de episteme = ciência + logos = discurso), o ramo da filosofia que estuda como se dá a aprendizagem racional e científica, aponta várias modalidades de aquisição do saber. O conhecimento empírico, que tem como meio a experiência, a prática cotidiana da busca para satisfazer nossas necessidades físicas, especialmente os instintos fundamentais da conservação própria (pela comida) e da espécie (pela cópula). E isto nós temos em comum com todas as espécies animais e vegetais. Já o conhecimento técnico requer uma atividade mental própria do ser racional, capaz de adquirir um “saber fazer”, um know-how, pela aprendizagem: pescar, caçar, construir uma moradia etc. O conhecimento mítico, baseado na crença ou numa fé religiosa, sustenta-se sobre o princípio da autoridade, sem nenhuma fundamentação lógica: a verdade sobre a criação do mundo, a origem e o destino do homem, bem como seu comportamento moral, teria sido revelada por entes transcendentais (divindades) a seres privilegiados (profetas, apóstolos) e registrada em livros considerados sagrados (Bíblia, Corão etc.). Tal conhecimento dogmático é imutável e inquestionável, pois baseado no que “Ele disse”. Já o conhecimento filosófico, recusando o apelo ao sobrenatural, lança mão do uso da razão, do pensamento reflexivo, para tentar respostas a vários interrogatvos, sendo o fundamental: existe vida espiritual após a morte corporal? De outro lado, a característica principal do conhecimento científico é o método objetivo e rigoroso de investigação, que se serve da observação e da sucessiva experimentação para formular hipóteses na tentativa de explicar fenômenos da natureza ou comportamentos de seres vivos, suplantando assim quer o princípio da autoridade, próprio do saber religioso, quer o pensamento abstrato, peculiar da busca filosófica. Enfim, apontamos o conhecimento artístico, pois achamos que admirar um quadro, ler um romance, recitar um poema, assistir um filme ou uma peça teatral implica em captar uma parcela de sentido do mundo, que cada verdadeira obra de arte tem dentro de si. Usando a imaginação, a fantasia, a ficção, o artista nos mostra uma realidade bem mais profunda e verdadeira daquela que se encontra ao nível do parecer. Como afirma a escritora sulina citada na epígrafe, “pensar é transgredir”, é contestar os valores sociais que nos fazem sofrer!

Salvação pelo Voto (07-08-2996) “O silêncio da gente honesta faz crescer a ganância dos corruptos” O imortal dramaturgo Nelson Rodrigues acertou em cheio ao afirmar que “toda unanimidade é burra”. As pesquisas de voto sobre a próxima eleição estão confirmando este achado, apresentando uma contradição inquietante: a maioria dos eleitores das classes mais cultas e abastadas (A e B) está propensa a votar contra o governo Lula; enquanto os mais necessitados (classes E, D e parte da C, nessa ordem, de baixo para cima) preferem a reeleição do atual Presidente. Quer dizer, enquanto os mais ricos votam contra o status quo que, de certa forma, lhes está sendo favorável, a classe mais miserável vota pela continuação da situação atual de uma nação minada pelo câncer da corrupção, que está corroendo nosso tecido social. O raciocínio de que, corrupto por corrupto, vou votar em quem está aliviando a fome dos mais pobres é compreensível, mas de um perigo incalculável. É preciso entender que os bilhões que, na véspera das eleições, estão sendo gastos em assistencialismo, para comprar os votos da grande massa necessitada, e para cooptar políticos de vários partidos, visando o apoio para a reeleição dos atuais mandatários, são provenientes dos impostos extorquidos da classe média, da grande parte da sociedade que, com a força do seu trabalho, carrega o país nas costas. Esta absurda quantia de dinheiro, além de não atingir completamente seus objetivos, pois a maior parte da verba populista se perde nos meandros da burocracia, acaba aumentando ainda mais a dívida pública, o que, conseqüentemente, irá provocar juros mais altos e uma maior miséria social. Não é por aí que o Brasil vai sair do atoleiro. É necessário lançar a base de uma nova ordem social, que consiga realmente punir os que usam o dinheiro dos nossos impostos para satisfazer egoísmos individuais ou de grupos. Chega de empreguismo, nepotismo, superfaturamento, desperdício do dinheiro público, tolerância ou cooptação com os criminosos da política, do submundo carcereiro e do tráfico de drogas, da violência nas ruas e no campo, da absurda desigualdade social. Com o nosso voto, podemos fazer justiça de todos os corruptos que estão sendo poupados pelo corporativismo político. Será a vingança do povo! A abstenção e o voto em branco ou nulo só favoreceriam os atuais detentores do poder, pois eles têm garantido os votos de seus currais eleitorais. Reeleger quem abusa da máquina do poder, inclusive do avião presidencial e das propagandas de estatais para uso pessoal, significaria concordar com a covardia e com a corrupção generalizada e impune, assinando em baixo de todas as falcatruas. Seria deficiência mental acreditarmos em novas promessas dos que já estiveram no poder e só se preocuparam em engordar seu patrimônio. E a solução de nossos problemas está ao nosso alcance, da forma mais eficiente possível. Não precisamos de impeachment, de CPIs, da Justiça federal ou do Exército brasileiro para cassar o mandato de Lula e de todos os políticos corruptos, coniventes ou omissos. Basta não votar mais em nenhum deles. Não adianta trocar apenas o Presidente, se o Parlamento todo não presta. Urge fazer uma limpeza geral, provocando uma verdadeira revolução pelo nosso voto consciente. Não importa quem seja o próximo Presidente do Brasil, pois fundamental é dar ao eleito as condições necessárias para pôr em prática um plano de governo que faça deste país uma verdadeira nação. Para tanto, é indispensável que, além de demitir o Chefão, nas próximas eleições, se escolham novos Governadores, Deputados e Senadores, honestos e competentes, não envolvidos nesse mar de lama e dispostos a ajudar o novo Presidente na construção de um Estado brasileiro, que nunca tivemos de verdade. Só poderemos ter coragem de olhar nos olhos límpidos de nossos filhos e netos, se prepararmos para eles um futuro melhor, uma pátria com cidadania, da qual possam se orgulhar, no lugar de se envergonhar. Que não sejamos novamente feridos pela arma do nosso próprio voto. Votar errado é humano, reeleger já é estupidez e masoquismo!

24- A fábula da RAPOSA e do OURIÇO (31/07/2006) Do homônimo latino, o termo “fábula” corresponde ao grego mythos, no sentido de uma história fantástica. Mas, diferentemente do mito ou do conto popular, a fábula não é uma lenda de origem anônima e coletiva, pois se trata de uma narração alegórica, inventada por um autor historicamente conhecido, cujos personagens são animais antropomorfizados, apresentando no final da historinha uma lição de ética comportamental, a popular “moral da fábula”. O gênero fabulístico, embora de origem oriental, tem longa tradição ocidental. Foi cultivado na Grécia por Esopo (ao redor do séc. VI a.C.), continuou em Roma com Fedro (séc. I d.C.) e chegou ao apogeu no Neoclassicismo francês com La Fontaine (1621-1695). O filósofo grego Aristóteles, em 330 a.C., relata que Esopo, para defender um político corrupto, inventara a fábula da raposa e do ouriço (mamífero roedor e espinhoso): o animalzinho perguntou à raposa se podia ajudá-la a remover as pulgas incrustadas em seu corpo. A raposa respondeu que não, argumentando que aquelas pulgas já estavam bem nutridas e não sugavam tanto sangue, e complementando: “se você as tirar de mim, novas pulgas, mais famintas, virão me atormentar”. Sem dúvida, é um ótimo motivo para justificar qualquer tipo de reeleição. A raposa está ao Estado como as pulgas aos governantes: políticos novos, sanguessugas mais vorazes! A dedução é de que seria preferível ficar com os que estão aí, os mesmos, que já engordaram bastante às custas do dinheiro de nossos impostos. Conta-se que em Siracusa, cidade da Sicília, na época da Magna Grécia, a uma velhinha que estava rezando em voz alta pela saúde do tirano Dionísio, foi perguntado o motivo do desejo de uma longa vida para um governante opressor e injusto. E a velha senhora respondeu que, no decorrer de sua longa vida, toda vez que rezara pela morte de um tirano, sempre lhe sucedeu um outro pior. A fábula de Esopo, como a historinha da velha siciliana, é de uma incrível atualidade e nos ajuda a entender o que ultimamente está se passando no nosso país. O Brasil sempre foi governado (melhor dizer, “sugado”) por políticos ligados a famílias ricas e poderosas, que dividiram o território nacional em verdadeiros feudos hereditários ou eleitorais, conforme a sucessão dos vários regimes autoritários ou supostamente democráticos. Exemplos atuais são os Sarney no Maranhão, os ACM na Baía, os Collor em Alagoas, os Maluf em São Paulo etc. Mas algo de novo aconteceu na última eleição: quem tomou o poder foi o Partido dos Trabalhadores composto, na sua maioria, por gente menos endinheirada e ainda não acostumada com as benesses que os cargos públicos propiciam. E, porque “quem nunca comeu doce, quando come se lambuza”, os petistas foram ao pote com tanta sede que acabaram sendo denunciados por cúmplices insatisfeitos, como sói acontecer com os assaltantes de bancos, que são descobertos apenas quando brigam entre si pela divisão do botim. E o raciocínio da grande massa do povo brasileiro, na atual conjuntura política, está sendo idêntico ao da raposa e da velhinha: se ninguém presta, para que mudar? Pelo menos Lula, nas vésperas das eleições, está dando umas esmolas aos mais necessitados. Tal postura de desespero faz esvaziar, mais uma vez, o sonho da construção de uma verdadeira cidadania, onde haja justiça social e não caridade eleitoral. Como acreditar num Presidente que promete fazer as reformas de base que não fez no fim do primeiro mandato? O Lulinha paz e amor nos faz lembrar do personagem de outra fábula clássica: o lobo na pele do cordeiro. Seus discursos cínicos e demagógicos não podem ser contestados, pois ele fala sozinho e para a camada popular inculta, não admitindo diálogo com nenhum veículo de comunicação. A ameaça ao Estado democrático configura-se especialmente no abuso do poder, usando de uma forma arbitrária o dinheiro arrecadado pelos extorsivos impostos cobrados de quem verdadeiramente trabalha e produz. Para se perpetuar no poder, legalizou a corrupção e a impunidade, prestigiando os políticos que lhe dão apoio, mesmo os acusados de crimes contra o patrimônio público. Reelegê-lo, junto com a corja que o apóia, seria assinar o atestado de óbito de nossa cidadania!

23- APOLO e DIONÍSIO (17 e 24/07/2006) No dia primeiro de maio, publicamos um artigo intitulado “Mito e Realidade”, onde dizíamos que o termo grego mythos indica uma história fantástica, de origem anônima e coletiva, inventada para tentar explicar fenômenos naturais ou comportamentos humanos, anteriormente ao avanço da filosofia e das ciências. Entre as criações míticas da Grécia antiga, as que mais contribuíram para a formação da civilização ocidental são as configurações de Apolo e Dionísio, que estão ao centro de duas concepções de vida. Vamos apresentar a “biografia” ficcional dos dois deuses e tentar apontar os sentidos possíveis de seus símbolos. O mito sobre o astro luminoso do céu, que possibilita a vida na terra, é descrito, na cultura greco-romana, por vários nomes: Apolo, do verbo luô (libertar); Febo, de phôs + bios (luz da vida); Hélios, (do grego aïolin: nuance das cores); Sol, do latim solus (o único). Narra o mito que Apolo nasceu, na ilha de Delos, de uma relação adúltera de Júpiter, o pai dos deuses, com a jovem Latona, perseguida pela ciumenta Juno, a esposa de Zeus. O deus-astro tinha a missão de trazer para a terra a luz, o calor e a vida. Toda a manhã, Apolo transportava o coche dourado do Sol (Hélios) para o alto do céu e, à noite, guardava-o atrás das montanhas. O Cosmos devia a ele não só a alternância dia / noite, mas também a mudança das estações: o inverno era causado pela ausência de Apolo, que anualmente viajava para o feliz país dos hiperbóreos, povo mítico que vivia na região do extremo norte, onde não soprava o vento Bóreas. Ligadas à sua prerrogativa fundamental, a luminosidade, estavam as múltiplas funções atribuídas a Apolo: pela luz cósmica, protegia a vida vegetal, animal e humana (patrono dos agricultores, dos pastores e dos navegantes); pela luz intelectual, era o protetor dos médicos e dos artistas; pela luz divina, era o deus dos oráculos, desvendando os mistérios da natureza. O mito da disputa entre Apolo e Pá (deus dos bosques) representa a vitória da lira sobre a flauta, da música suave e harmoniosa sobre os acordos rudes, da beleza sobre a fealdade, da forma sobre a desagregação, da harmonia sobre a desordem, da medida sobre o excesso, da cultura sobre a natureza, da civilização grega sobre a barbárie asiática. A iconografia de Apolo é uma confirmação figurativa do conceito de beleza apolínea, entendida como harmonia de formas: abstraindo de vários efebos (jovens lindos) as partes corporais mais bonitas, os artistas gregos procuraram chegar à criação de um modelo de beleza masculina, universal e absoluta, em que o todo fosse a resultante de partes proporcional e harmonicamente estruturadas. Apolo é apresentado, portanto, como o deus de todas as faculdades criadoras de formas. É o deus da luz, da ordem e da harmonia. Surge como uma “aparição” radiosa que revela ao mundo os segredos dos sonhos e desvenda os mistérios da vida. A arte que nele se inspira — a apolínea -- tem como fundamento o sonho, a imaginação, a ilusão, um radical otimismo, a confiança nas forças do homem, considerado capaz de alcançar a vitória sobre o mal e a mentira. Apolo, com a musa Calíope, gerou Orfeu, poeta e músico, venerado pelos gregos porque seu canto abrandava a dor e fascinava homens, animais e até minerais. A dor de Orfeu pela morte da amada Eurídice constitui uma das páginas mais líricas da mitologia clássica. Nas artes plásticas, Apolo é esculpido ou pintado como um belo jovem completamente nu ou coberto por arco e lira, com uma coroa de flores na testa. Suas estátuas mais conhecidas são: Apolo Sauroctone, cópia de um original do escultor grego Praxíteles, no Louvre; Apolo de Kassel, cópia de uma peça de Fídia; Apolo do Belvedere, no Vaticano. Na pintura, o Apolo mais bonito é o de Rafael, em plena Renascença, que se tornou o modelo clássico da beleza masculina. O adjetivo “apolíneo” foi inicialmente utilizado pelo filósofo alemão Nietzsche, em oposição ao “dionisíaco”. Contrastando com o deus Apolo, Dionísio, o romano Baco, teve uma vida bastante acidentada. Conforme o mito, ele foi por duas vezes filho de Júpiter, daí o apelido de “ditirambo”, que era o nome do hino religioso a ele consagrado. O pai dos deuses, sedutor incorrigível, teve um caso com a princesa tebana Sêmele. Sua esposa Juno (a grega Hera), roída pelo ciúme, provocou a morte da bela jovem, grávida de seis meses. Júpiter, então, realizou o primeiro tipo de parto, que modernamente se chama cesariana: abriu o ventre da princesa morta, recolheu o feto e, porque naquela época não havia estufas, com a mesma faca, fez um corte na sua coxa direta, onde colocou o prematuro, dando continuidade à gestação. Fruto híbrido de um amor divino-humano, Dioniso não foi aceito no Olimpo e precisou conquistar o direito à imortalidade por suas próprias forças. Errou pelo mundo até então conhecido e conseguiu o caminho da glória pela descoberta da uva e do vinho. Tocando flautas ou tamborins, acompanhado pelo cortejo de sátiros, bacantes, centauros e pelos deuses Sileno e Pã, Baco propiciava aos homens e aos deuses alegria e felicidade. Enquanto durava o estado de embriaguez, seus devotos sentiam a presença do deus do vinho dentro de si e se deixavam levar pelos ritos orgíacos, entrando em transe histérico. Dionísio sempre foi considerado pelos gregos como um deus subversivo, pois personificava a desobediência à ordem e à medida, a vida do instinto, a liberdade e o prazer sem limites, a inversão dos valores sociais. O espírito dionisíaco encontrou sua primeira manifestação artística no coro ditirâmbico que, segundo a maioria dos estudiosos da literatura grega, foi o embrião da tragédia antiga, quando o mito de Dioniso, no lugar de ser apenas contado, passou a ser também encenado. As pessoas, que compunham o coro de *Dioniso, sentiam-se transformadas pela embriaguez e punham de lado a máscara social, manifestando sua verdadeira personalidade. No estado dionisíaco, nos momentos de excitação orgíaca, esquecido de seu status, o homem sentia-se membro de uma comunidade universal em que se quebravam as barreiras de classes. Assim, o homem divinizava-se, o escravo emancipava-se, a crueldade tornava-se prazer, o grotesco misturava-se ao sublime. Este espírito dionisíaco, vivido também nas saturnálias romanas, persiste em todas as manifestações carnavalescas da cultura ocidental. O mito de Dionísio invadiu Literatura e Artes, ao longo da nossa história. A obra do filósofo-poeta alemão F. Nietzsche (1844-1900) está toda ela impregnada do espírito báquico, ele mesmo definindo-se um “demônio dionisíaco”. Duas de suas obras são fundamentais para entendermos a importância do mito de Baco na evolução do pensamento e da arte européia: A Origem da Tragédia e Assim falou Zaratustra. Nietzsche fala da oposição apolíneo / dionisíaco para indicar duas posturas perante a vida: viver conforme a razão e as ideologias sociais (código cultural) ou de acordo com o instinto da satisfação individual (código natural).

22- O crime compensa (10/07/2006) “O pecado, depois do pecado, é a revelação do pecado” (Machado de Assis) O maior ficcionista brasileiro, no conto O enfermeiro, narra a história de Procópio, carioca desempregado, que aceita a tarefa de cuidar do rico coronel Felisberto, que vive sozinho numa cidade do interior. O protagonista suporta pacientemente as ofensas físicas e morais do irascível e prepotente coronel, mas numa noite, depois de ter sido atingido por uma moringa lançada-lhe no rosto pelo patrão, num ato impulsivo, coloca-lhe as mãos no pescoço, acabando com sua vida. Apavorado, esconde os sinais do crime, fazendo crer a morte como natural. Depois do enterro, aberto o testamento do coronel, descobre que fora designado como seu herdeiro único e universal. Passada uma breve crise de consciência, o enfermeiro oferece uma pequena quantia a obras de caridade e volta para a Corte usufruir gostosamente da inesperada fortuna. Neste conto, Machado, com a fina ironia de sempre, contesta o ditado popular de que “o crime não compensa”. Na verdade da arte, que espelha o sentido mais profundo da vida, o crime compensa e como! Basta apenas não ser descoberto. Mas, na recente história do nosso país, a realidade está superando a arte, visto que, mesmo revelado, o crime continua compensando. O ser humano é egoísta por natureza, movido pelo desejo (de satisfazer suas vontades inconfessáveis) e pelo temor (de ser castigado pela sociedade), sentimentos que criam um conflito existencial. Celebre é a definição do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679): homo homini lupus (o homem é o lobo do homem). O que distingue uma sociedade civilizada de uma selvagem, não é a ausência da maldade ou da corrupção, mas sua impunidade. Quer dizer, a satisfação do desejo de levar vantagem sobre os outros (a famigerada lei de Gerson) não tem o contraponto do temor do castigo, se a malandragem for descoberta. A falta da punição acaba com o princípio da ética, passando a ser tudo permitido. O que, tragicamente, está acontecendo no Brasil do governo Lula. O Presidente considerou normal o uso do Caixa 2, as licitações fraudulentas, o tráfico de influências, o abuso do poder, o empreguismo de parentes e partidários e todas as outras formas de corrupção ativa e passiva. A maioria dos indiciados, além de não sofrerem sanções, estão pleiteando a renovação de seus mandatos. Quer dizer, a corrupção foi definitivamente institucionalizada no nosso país, passando a ser uma prática aceita, inimputável. A conseqüência imediata do desgoverno é a violência na cidade e no campo, os assassinatos diários de policiais, agentes penitenciários, bandidos e inocentes, o terror de assaltos e seqüestros, a criminalidade juvenil, o domínio do narcotráfico. Qual é o exemplo que vem de cima, a não ser a imoralidade, a vagabundagem, a injustiça social, o abuso do poder? O novelista Sílvio de Abreu, numa entrevista publicada pela Veja de 21/06/2006, afirma que “a moral está torta” pois, ultimamente, os telespectadores não admiram mais a retidão de caráter, mas a esperteza dos personagens canalhas, que fazem de tudo para subir na vida. O mesmo diga-se dos ídolos do nosso futebol, que gastam mais tempo em fazer anúncios de produtos comerciais ou namorar modelos famosas do que treinar para defender as cores da pátria. Se o folgado, o malandro, o corrupto se tornou modelo de comportamento, como estranhar o desejo de reeleição dos atuais políticos, inclusive do próprio Presidente, que finge não ser candidato, enquanto se beneficia da máquina do Estado para sua campanha eleitoral e usa o dinheiro de nossos impostos para dar esmolas aos mais pobres e aumentar os ordenados de burocratas, nas vésperas da eleição e de uma forma arbitrária e irresponsável? O absurdo é cultural, pois o povão está disposto a vender seu voto, de novo, em troca de uma bolsa qualquer, concordando com a vergonha nacional!

21- Alienação geral (03/07/2006) O extremo limite da sabedoria é o que as pessoas chamam de loucura (Jean Cocteau) O tema da loucura ou da alienação humana foi investigado, ao longo da cultura ocidental, por pensadores, artistas e cientistas da área médica, sendo a principal preocupação da psiquiatria. Na Idade Média, quem agisse de uma forma extravagante, fora dos parâmetros religiosos da época, era considerado herege ou bruxo e condenado à fogueira. O que aconteceu, por exemplo, com a “Donzela de Orléans”, a heroína francesa Joana D’Arc, sacrificada em 1431 e santificada séculos depois, em 1920, pela mesma Igreja Católica. Na Renascença, o filósofo Erasmo de Rotterdam, no ensaio Elogio da loucura (1511), considera a anomalia, o devaneio e o delírio como antídotos à monotonia da vida cotidiana, afirmando que “a pior loucura é ser sábio num mundo de loucos”. O ficcionista Machado de Assis, no famoso conto O Alienista, trata o tema da loucura com a ironia que lhe é peculiar: o protagonista Simão Bacamarte, médico de Itaguaí, resolve dedicar-se a pesquisas psiquiátricas e funda o hospício Casa Verde para cuidar dos dementes. Em breve tempo, esvazia-se a cidade e lota-se o hospício, pois quase todo o mundo sofre de algum desequilíbrio racional ou emocional. Coerentemente, então, o médico Bacamarte passa a considerar loucas as poucas pessoas equilibradas, visto que a quase totalidade dos cidadãos apresenta defeitos psíquicos. O conto machadiano mostra assim, em forma de arte literária, uma profunda verdade existencial: o homem verdadeiramente lúcido e sábio, no fim, é um louco, porque não pensa ou não age conforme “Maria vai com a as outras”, mas com base num raciocínio lógico e coerente. Numa outra obra de ficção, Diário de um louco, Gogol aborda o mesmo tema da esquizofrenia, de que é vítima um humilde funcionário público. A loucura é confundida com o demônio, pois a natureza diabólica, segundo o escritor russo, consiste no esmagamento do indivíduo por um sistema social opressivo e degradante. A alienação pode se tornar um estado de espírito coletivo, uma forma de histeria geral provocada, em certas circunstâncias, por líderes carismáticos que hipnotizam multidões com discursos patrióticos ou populistas, iludindo as massas pouco esclarecidas por ideologias desastrosas que esmagam a democracia e fomentam guerras e corrupção. Podemos listar alguns nomes da história recente: Hitler, Stalin, Saddam, Bush, Fidel Castro, Hugo Chaves. E o nome do atual Presidente do Brasil, o “Lulinha paz e amor”, poderia ser acrescentado a este elenco de poderosos alienados e alienantes. Para onde Lula pretende levar nosso país, ao usar o dinheiro extorquido por pesados impostos sobre quem realmente trabalha, para proteger banqueiros, corruptos, burocratas, vagabundos, gente irresponsável? E o pior é que a grande massa popular está disposta a perpetuá-lo no poder, iludida por esmolas eleitoreiras. A nosso ver, o que explica essa alienação política, pela qual o brasileiro, decepcionado pelos sucessivos governos corruptos e incompetentes, está disposto a renunciar ao sonho de conseguir uma cidadania de primeiro mundo, é a existência, na nossa sociedade, de outras formas de alienação: a familiar (o casal não assume a responsabilidade da criação decente de seus filhos), a educacional (a escola pública insatisfatória), a religiosa (o fanatismo que projeta a felicidade num outro mundo), a econômica (gastar mais do que se ganha para realizar sonhos de consumo), a esportiva (a idolatria do heroísmo físico), a cultural (viver às custas do empreguismo estatal e de privilégios corporativistas, preferindo a caridade à justiça social). Afinal, quem é o alienado? O político corrupto e egoísta ou o povão que o elege e reelege?

20- Sobre o Trabalho humano (26/06/2006) “E dentro de 25 ou 30 anos, no máximo, cada homem trabalhará. Cada homem!” (Tchekhov) Esta fala do barão Nikolai, personagem da peça As três irmãs, do dramaturgo russo Anton Tchekhov, representada em 1901, foi profética, pois, 16 anos depois, estourou a Revolução Bolchevique, que acabou com os privilégios de classe e a propriedade privada, obrigando, em tese, todos os homens da antiga URSS a produzirem bens para a coletividade. Mas, ao longo do tempo, se verificou que o sonho comunista era pura utopia, não produzindo os frutos esperados. O regime comunista deu origem a uma violenta ditadura partidária, que oprimiu as forças vivas da nação, substituindo a antiga classe privilegiada dos nobres por burocratas todo-poderosos. E as injustiças sociais continuaram, com as agravantes da tirania, da hipocrisia e da falta de liberdade. Na verdade, o conceito e a pratica do trabalho humano evoluíram através dos tempos. O termo “trabalho” “trabalho” vem latino tripalium, um instrumento de tortura, composto de três paus entrelaçados. O sema do “sofrimento” evoluiu para o significado do “esforço”, que passou a predominar, mas sua relação com a dor está presente ainda hoje: falamos de “trabalho de parto”, por exemplo. Trabalhar, em geral, significa esforçar-se para obter algo, para exercer uma profissão ou desempenhar uma tarefa, que pode ser material, intelectual ou artística. O trabalho é um dever e um direito do homem. Um dever porque cada qual, numa sociedade livre, tem que prover seu sustento, não sendo justo que uma pessoa adulta e sadia viva às custas do trabalho de outro. Esta é uma prescrição que se encontra nas sagradas escrituras de todas as religiões e nos costumes dos povos primitivos ou civilizados. Um dos primeiros documentos literários da cultura grega é o poema didático Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, em que se demonstra a relação profunda entre o Trabalho e a Justiça, sugerindo já o conceito de “meritocracia”, a importância de uma retribuição conforme o mérito de cada um. Ninguém pode reclamar de direitos, se não cumprir seus deveres. Mas, como o homem pode cumprir seu dever se lhe se nega a oportunidade do trabalho? Aí se coloca o gravíssimo problema do desemprego. Na verdade, não deixa de ser um absurdo sociológico. A Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1948, emitiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo artigo 23 reza: “toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha, a condições eqüitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego”. Mas esta disposição, a não ser por algumas nações européias pequenas e altamente civilizadas, não vem sendo posta em prática. O índice médio de desemprego atinge 10 % de populações tecnologicamente desenvolvidas e 20 % de países atrasados. Tem que se entender que providenciar o emprego para todos não é um favor, mas uma obrigação do governo. O desempregado não amparado pelo Estado é propenso ao furto, à violência, à prostituição, ao tráfego de drogas, ao crime, tornando-se um perigo público. Já foi observado que jovens palestinos vão à guerra porque não têm oportunidade de ir ao trabalho. Para eles, a guerra passa a ser um meio de vida, como é o narcotráfico para muitos favelados brasileiros. Cabe á família e ao estado, como instituições sociais, o ônus de educar as crianças, desde a escola materna, para a escolha de uma profissão digna, de modo que o homem, quando adulto, não dependa mais da esmola pública ou privada para sobreviver. Essa é uma questão de cidadania e, sobretudo, de cultura. O maior mérito do povo anglo-americano é sua força de trabalho, herdada da ética luterano-calvinista, que considera a riqueza como uma benção divina. Uma de suas máximas ilustrativas é encontrável num livro didático da língua inglesa: “apenas no dicionário o ‘sucesso’ está antes do ‘trabalho’, pois o caminho do êxito não tem elevador, obrigando-nos a subir árduos degraus de uma longa escada”! Mais ainda, o trabalho tem que ser encarado como um ato de amor. Dizia o sábio Confúcio: “escolha um trabalho que você ame e não terá de trabalhar um único dia em sua vida”.

19- O mito do OLIMPO (19-06-2006) Mens sana in corpore sano Em clima de Campeonato Mundial de Futebol, vale a pena lembrar a origem dos esportes, retomando nossos estudos sobre os mitos formadores da civilização ocidental. A cidade de Olympia era um centro religioso do Peloponeso, onde havia o majestoso Santuário a Zeus, chamado “Júpiter Olímpico”. O nome “Olimpo”, originariamente, foi o de várias montanhas da Grécia. Com o passar do tempo, o termo se desvinculou de um monte específico, para indicar um lugar utópico, a morada dos deuses, correspondente ao Éden bíblico, ao Paraíso cristão, ao “Pasárgada” do poeta Manuel Bandeira, estabelecendo-se, assim, uma relação direta entre o culto do corpo e a felicidade humana. As disputas esportivas começaram no séc. VII a.C., apenas com a corrida no estádio, depois se acrescentaram outros desafios, como o pentatlo, a corrida de carros e até representações dramáticas. Os jogos olímpicos eram celebrados a cada quatro anos, durante uma semana do mês de julho. Eram anunciados previamente por mensageiros enviados por toda a Grécia. O apogeu das Olimpíadas antigas deu-se no séc. V a.C., junto com o esplendor de toda a cultura da Grécia, especialmente no governo de Péricles. Os vencedores das várias categorias esportivas eram coroados com folhas de louro, seus corpos imortalizados em estátuas e seu valor exaltado por poetas (“epinícios”). Os jogos olímpicos foram realizados até o ano de 393 d.C., de uma forma ininterrupta, existindo a chamada “trégua olímpica”, que suspendia qualquer atividade bélica no decorrer dos jogos. No início do séc. IV d.C., o imperador romano Teodósio I ordenou o incêndio do templo de Zeus e a proibição dos jogos, acabando com a fortuna da cidade de Olímpia. E, pela infinita estupidez do gênero humano, este último imperador romano (antes da divisão do poder entre o Ocidente e o Oriente), bárbaro da Gália, passou à história como Teodósio o “Grande”, por ter imposto o Cristianismo como religião de Estado e acabado com a cultura greco-romana, dando origem ao longo período medieval, dominado pela Igreja católica, que paralisou a civilização européia por quase um milênio. O princípio clássico da “mente sadia num corpo sarado” foi substituído pela norma cristã da “alma pura num corpo castigado” pela penitência, projetando a felicidade num outro mundo. O que era prazer corporal se tornou pecado. O culto do físico foi retomado no Renascimento, mas apenas no fim do séc.XIX chegou ao seu apogeu com o início das Olimpíadas modernas, instituídas pelo empenho admirável do francês Pierre de Coubertin, que lutou para criar o primeiro Comitê Olímpico Internacional, que organizou a primeira competição moderna na cidade de Atenas, em 1896. Hoje em dia, as Olimpíadas representam a expressão máxima do progresso do esporte, nas modalidades mais praticadas no mundo inteiro, sempre com a finalidade de melhorar a condição física do homem, cada vez mais superando limites anteriormente considerados inatingíveis. Abaixo das Olimpíadas, o espetáculo esportivo mais empolgante é a Copa do Mundo na modalidade do futebol, também realizado a cada quatro anos e nos anos pares, intercalados com os jogos olímpicos. As disputas esportivas estimulam a competividade sadia, que promove o progresso e irmaniza os povos, enquanto as guerras semeiam o ódio que divide as nações. Se os jovens de todo quadrante fossem ensinados a usar mais bolas do que armas, o mundo seria outro. Mas, além do corpo, precisamos educar a mente e o coração. Os gregos inventaram não apenas as olimpíadas, mas também a filosofia, a poesia épica e lírica, o teatro, as artes plásticas, a verdadeira cidadania. Eles nos ensinaram que a educação do ser humano deve ser tridimensional: exercitar a inteligência (pelo estudo), o coração (pelo culto da afetividade) e o corpo (pelo exercício físico). Se o brasileiro tem capacidade de superar todos os outros povos nas disputas de futebol, por que não pode vencer também a luta interna contra a corrupção e a injustiça social, exercendo seu direito de cidadania pelo voto consciente, escolhendo governantes honestos e competentes, que lhe assegurem educação, trabalho e saúde, no lugar da esmolas demagógicas e eleitoreiras?

18 - Sobre Trens e Metrôs (12/06/2006) Os últimos governos que mandaram no Brasil, ao sucatarem as ferrovias, cometeram um crime de incalculáveis conseqüências econômicas e ecológicas. Enquanto as nações mais civilizadas aprimoraram o transporte ferroviário, construindo locomotivas cada vez mais velozes, superando os duzentos quilômetros por hora, para o transporte de pessoas e cargas, o Brasil andou na marcha à ré da evolução tecnológica neste setor vital para a economia do país e sucatou as linhas ferroviárias existentes para privilegiar as estradas de rodagem, meio de transporte mais lento, mais caro, mais perigoso e extremamente poluente. Devido à imensidão territorial do Brasil, o transporte ferroviário, junto com o aéreo e o fluvial, seria o mais adequado por cobrir longas distâncias e usar a eletricidade, que é uma energia nossa, mais limpa e mais econômica. O que explica o sucateamento das ferrovias estaduais e federais? Anos atrás, a imprensa noticiou a apresentação de um projeto de “trem-bala” entre São Paulo e Rio de Janeiro, que faria o trajeto entre as duas maiores capitais em apenas duas horas: tecnologia japonesa, capital internacional, mão de obra brasileira, exigindo apenas dez anos de exploração para recuperar o dinheiro investido. Em Brasília, conforme então vociferado, membros do nosso Congresso Nacional boicotaram o projeto, atendendo ao lobby das companhias de ônibus e de automóveis, de petróleo e de pneus, entre outras que se sentiram prejudicadas em seus interesses corporativistas. A resposta à pergunta acima é a mesma que explica a causa de todas as desgraças nacionais: a corrupção da classe política, que apóia quem lhe dá dinheiro ou favores por baixo do pano, prejudicando os interesses do povo como um todo Onde esta miopia política, que dá preferência ao transporte rodoviário e individual, nos está levando? As estradas de rodagem já não suportam mais a enorme carga transportada pelos caminhões do Norte ao Sul do Brasil, esburacadas em sua maioria. Nossas cidades estão cada vez mais entupidas de automóveis, com trânsito congestionado e poluição insuportável, provocando stress e doenças respiratórias. Todas as grandes cidades de países desenvolvidos fazem largo uso do metrô, que pode ser subterrâneo, aéreo ou ao nível do solo, com faixas exclusivas para o transporte coletivo. Um vagão do metrô transporta mais gente do que dúzias de automóveis e de uma forma mais rápida, mais segura, mais econômica e menos estressante. É só fazer uma grande rede que conecte os principais bairros de uma cidade, como existe em Londres, em Paris, em Tókio. Lá, poucas pessoas usam o carro particular diariamente para ir trabalhar. Se não tomarmos providências agora, nossos filhos e nossos netos herdarão o caos em termos de transporte, pois, a cada dia e no Brasil todo, milhares de carros, motos e caminhões novos invadem rodovias e ruas, e o espaço físico não se dilata. O abandono da via férrea é um crime de lesa pátria, assim como outros (falta de planejamento familiar e de escolas integrais, filas de doentes nos postos de saúde etc.), que permanece impune. Culpada, mais do que os políticos, é a grande massa popular que reelege sempre os mesmos homens, anestesiada por um assistencialismo imediatista e eleitoreiro. É desolador verificar que as recentes pesquisas de prévias eleitorais apontam vitorioso um Presidente e um Partido que estão envergonhando nosso país, enlameado pela corrupção, violência e incompetência. O estranho fenômeno explica-se pelo desespero da população mais necessitada que, não vislumbrando outro salvador da pátria, se apega a quem lhe oferece alguns benefícios imediatos. Mas o preço que a nação brasileira está pagando é altíssimo: a condenação a permanecer com uma cidadania de terceiro mundo ao longo de muitos anos, pois o partido do atual Presidente planeja ficar décadas no poder, instaurando uma ditadura demagógica e populista, disfarçada de democracia, nos moldes de Fidel Castro ou Hugo Chavez. Com o dinheiro dos impostos extorsivos, cobrados de quem trabalha e produz, o governo do PT, em troca de votos para perpetuar-se no poder, oferece esmolas à parcela da população mais necessitada e inculta, que ainda continua pondo filhos no mundo, sem condições de sustentá-los, e procura empregos públicos em lugar de trabalho, pois não está educada a ler, a estudar, a freqüentar cursos universitários ou profissionalizantes.

17- Parlamentarismo com Bipartidarismo (05/06/2006) “Os políticos, como as fraldas, devem ser trocados sempre, e pelo mesmo motivo” Essa comparação nos fornece uma imagem olfativa da nossa realidade: os homens políticos fedem na proporção direta do tempo em que ficam no poder. Urge evitarmos o continuísmo, que está na raiz da corrupção política e administrativa. Já foi dito e a história confirma que ainda não foi inventado um sistema político melhor do que o democrático, pelo qual todo o poder emana do povo e deve ser exercido com a finalidade primordial de prover ao bem estar e à felicidade da grande massa populacional. E nada mais justo, pois a fonte principal da riqueza de um País provém da arrecadação dos impostos pagos por trabalhadores, produtores e consumidores. Acontece, porém, que o regime político que vigora no Brasil não vem respeitando a vontade da maioria dos votantes, pois não são os homens mais votados que tem o poder de dirigir o País. Na prática, devido à fragmentação dos partidos, são as legendas nanicas que acabam dirigindo a Nação. Se o partido A recebe 40% dos votos, o B 30% e o C 15%, será este último (ou vários pequenos associados), a ser o fiel da balança. Os partidos menos votados barganham seu apoio com um ou outro partido, que tem uma maioria apenas relativa. Para que qualquer projeto de lei possa ser aprovado é preciso fazer concessões, distribuindo cargos, favores, privilégios, liberações de verbas, tráficos de influências etc., passando a pôr em prática o famigerado ditado evangélico “é dando que se recebe”, que está em conluio com o maquiavélico “o fim justifica os meios”. Em nome de princípios ideológicos ou até jurídicos são cometidas ações nefandas que envergonham a raça humana. A nosso ver, o Pluripartidarismo e o financiamento privado das Campanhas Eleitorais constituem as duas fontes fundamentais da corrupção. O remédio seria a adoção do sistema do Bipartidarismo, que já existia na Roma Antiga, a mãe do Direito Público, onde havia apenas o partido Aristocrático e o partido Democrático. Tal forma de regime funciona, ainda hoje, nas mais eficientes democracias modernas (Conservadores e Trabalhistas, na Inglaterra; Republicanos e Democráticos, nos EUA, por exemplo). A experiência brasileira da Arena e do MDB não pode ser levada em conta, pois se deu durante o execrável regime ditatorial, que impedia o livre exercício da liberdade. A proposta atual seria institucionalizar apenas dois partidos: um, voltado mais para a “direita”, interessado na salvaguarda dos direitos individuais ou de corporações; outro, com inclinação para a “esquerda”, defendendo as classes menos favorecidas. Simplesmente, o primeiro poderia ser chamado de “Partido Liberal” (PL) e o segundo de “Partido Social” (PS). O Presidente da República, escolhido pelo Parlamento, sem estar filiado a nenhum partido, indicaria o Primeiro Ministro entre os membros do partido mais votado e este formaria o governo com gente honesta e competente. Se o partido vencedor não viesse ao encontro dos interesses da maioria, o Presidente da República poderia nomear outro Primeiro Ministro ou convocar novas eleições. A grande vantagem deste sistema é a garantia da governabilidade: o partido vencedor nas urnas, tendo a maioria absoluta no Parlamento, nas Assembléias e nas Câmaras, não precisaria dos votos da oposição para realizar todas as reformas políticas e sociais prometidas nas plataformas eleitorais. Não haveria necessidade de agradar “gregos e troianos”, multiplicando ministérios e secretarias e indicando parentes e apadrinhados de políticos para ocuparem cargos públicos sem concursos. A Política não é profissão e o Governo não é cabide de emprego.. A não ser Ministros do Governo Federal e Secretários dos Estados, todos os outros postos de serviço público poderiam ser preenchidos sempre através de concursos por funcionários de carreira. Isso levaria a uma Administração Estável, pois, a cada eleição, a mudança se daria apenas no primeiro escalão do novo Governo. Fundamental seria também o enxugamento da máquina pública, com a redução do número de deputados, senadores, vereadores, assessores, secretarias, ministérios, diretorias, repartições, comissões, presidências, lideranças etc. Atualmente, um deputado federal tem o direito de nomear uma vintena de “assessores”. Para fazer o quê? Que adianta inventar tantas leis, se as que já existem (e são inúmeras!) não são postas em prática? Eliminando os empregos parasitários e reduzindo as despesas com o serviço público ao mínimo necessário, sobrariam mais verbas para a educação, a saúde, o transporte coletivo, a geração de trabalho produtivo.. Há cidades com duas ou mais Prefeituras, cujas Câmeras de vereadores são apenas cabides de emprego. Se já sustentamos um corpo diplomático caríssimo (embaixadas, consulados, adidos culturais e comerciais), por que o Presidente da Republica deve cuidar dos intercâmbios pessoalmente, levando caravanas em custosas viagens internacionais? E por que gastar tanto dinheiro com marketing de empresas públicas? Órgãos governamentais não têm que competir com firmas particulares. Temos que moralizar a Máquina do Estado, assim como limitar a Campanha eleitoral apenas à propaganda gratuita por jornais, rádios e canais de televisão, proibindo-se a poluição ideológica, sonora e visual, produzida por showmícios, churrascos, panfletos, outdoors, camisetas e tudo o mais que implique em gasto de dinheiro público ou privado, de forma a não favorecer os candidatos detentores do poder político ou econômico. Mas, como todo sistema político, o Bipartidarismo também poderia apresentar inconvenientes. O maior seria o perigo de cairmos numa “Ditadura Partidária”, se alguns “chefões” se apoderassem das rédeas de um partido, tornando-se donos das legendas, indicando os candidatos aos pleitos não pelos méritos, mas por intrigas, coibindo a liberdade individual de discordar e de se candidatar. Tal perigo poderia ser esconjurado porém se, também aqui, fosse posto em prática o princípio democrático de prevalecer a vontade da maioria. Os dois partidos deveriam usar sempre o sistema de prévias. Para qualquer eleição de dirigente partidário, como para a escolha de candidatos a cargos públicos, deveria ser obrigatório consultar as bases. E qualquer liderança não poderia durar mais de quatro anos. Deveríamos evitar, além dos políticos profissionais, também os dirigentes de partidos ou sindicalistas de carreira. Estes também deveriam ter um trabalho próprio e não viverem às custas do partido ou do sindicato. Assim, tanto dentro do sistema político, quanto no quadro partidário, haveria uma constante renovação de pessoas e de ideologias, gente nova substituindo constantemente as velhas lideranças. Democracia é Renovação e não Apropriação! Evidentemente, tal reforma política não interessa aos atuais detentores do poder. Nossa esperança é que, nas próximas eleições, o povo faça um limpa, escolhendo gente nova com espírito patriótico e sem os vícios dos atuais políticos, para que os Deputados e Senadores eleitos façam as reforma estruturais necessárias para a construção de uma verdadeira cidadania.

16- Política é profissão? (29/05/2006) “Mudem tudo, mas apenas o suficiente para manter as coisas exatamente como estão” (Príncipe de Lampedusa) A epígrafe acima é parte de uma fala do protagonista do romance O Leopardo, um best-seller internacional, acerca da invasão da Sicília, em 1860, pelas forças revolucionárias (os Camisas Vermelhas) de Giuseppe Garibaldi (o companheiro da nossa Anita), visando a unificação da Itália. A frase sintetiza, de uma forma irônica, o resultado zero da mudança do governo na histórica ilha do Mediterrâneo. Após a revolução, a aristocracia local se aburguesou e os novos ricos compraram títulos de nobreza, sem que o povo tivesse benefício algum, nem sequer a prometida reforma agrária. Na Roma Antiga, nos momentos de crise institucional, os imperadores distribuíam sacos de farinha para fazer o pão e promoviam os jogos no circo (panem et circenses) para acalmar a fúria da plebe faminta. Infelizmente, o vício político da esmola se tornou cultural na maioria dos países de origem latina. No Brasil, em lugar do pão se dá a bolsa família e o circo é substituído pelos estádios de futebol e pelas micaretas carnavalescas Para abafar a incompetência política e a onda de corrupção que está assolando o país, o atual governo vem distribuindo milhões aos movimentos sociais mais atuantes (MST, CUT e UNE), com o firme propósito de permanecer no poder. O Lula e seus companheiros do PT esqueceram-se que foram eleitos para realizar mudanças profundas nos costumes políticos e sociais. Querendo construir um Estado poderoso nos moldes do comunismo internacional (sistema político que não deu certo em lugar algum, pois o Governo é um péssimo administrador), aumentaram e distribuíram cargos sem concursos para petistas e simpatizantes, onerando de uma forma irresponsável o erário público e criando uma gigantesca rede de corrupção. Mudou o maestro e a banda de gatunos, mas a música é a mesma, apenas muito mais desafinada e de uma periculosidade imprevisível. Na verdade, a falha não está neste ou naquele governante, mas no próprio sistema político, implantado desde o início da colonização portuguesa e agravado, sucessivamente, pelo imperialismo escravagista, pelo coronelismo corrupto e por regimes mais demagógicos do que verdadeiramente democráticos. Exemplos atuais são os currais eleitorais dos Sarney no Maranhão, dos Collor em Alagoas, dos ACM na Baía, dos Maluf em São Paulo, que têm seus correspondentes em governantes populistas da América Latina, tipo Evo Morales, Hugo Chavez e Fidel Castro, este último listado pela revista Forbes como o 12º homem mais rico do mundo, superando a própria Rainha da Inglaterra, enquanto o povo cubano vive na miséria. Estes e outros chefões da política se perpetuam no poder comprando os votos da massa inculta e necessitada, mediante a distribuição de favores (com o dinheiro dos impostos extorquidos dos cidadãos que mais trabalham!), sempre protelando o início das reformas básicas indispensáveis para a construção de uma verdadeira cidadania. O que fazer, então? Se não se pode eliminar o homem político, pelo menos que se evite o “profissional da política”. Basta um pouco de reflexão para encontrarmos a causa primordial da corrupção institucionalizada: se um cidadão deixar de exercer sua atividade profissional (médico, advogado etc) para dedicar-se exclusivamente à atividade política (vereador, governador etc.) por um tempo prolongado, é óbvio e até justo que passe a viver apenas dos proventos deste seu novo trabalho. Mas é aí que mora o perigo! Para viver apenas de política, ele deve cuidar do seu reduto eleitoral para poder-se reeleger sucessivamente, fazendo barganhas para conseguir legendas e verbas para a próxima candidatura. Que saudade do tempo em que o vereador não recebia ordenado! Precisamos tomar consciência de que a Política, como o Sacerdócio, deve ser uma vocação e não uma profissão. A mudança de mentalidade que acabe com o continuísmo personalista depende apenas de nós: votemos sempre “NÃO” para qualquer tipo de Reeleição, especialmente em quem é chefe do governo e abusa da máquina administrativa para continuar no poder. Tal postura é pura covardia!

Campanha do VOTO JUSTICEIRO A frase de Santiago Dantas “o povo como povo é melhor do que a elite como elite” é verdadeira se a massa popular usar o voto como arma política e não como objeto de troca para obter um favor (camiseta, remédio ou uma bolsa qualquer). Especialmente se não se deixar enganar pelo discurso demagógico de mais um Messias ou Salvador da Pátria, que promete o que não pode cumprir, pois quem faz as leis numa Democracia é o Parlamento e não o Presidente. Precisamos mudar não apenas os chefes da República, dos Estados e dos Municípios, mas também todos os senadores, deputados e vereadores corruptos, coniventes ou omissos. É necessário lançar a base de uma nova ordem social, que consiga realmente punir os que usam o dinheiro dos nossos impostos para satisfazer egoísmos individuais ou de grupos, em lugar de promover as reformas de base para a construção de uma verdadeira cidadania. Para acabarmos com os profissionais da política e seus currais eleitorais, a causa primeira da miséria social e moral em que vivemos, basta dizer “NÃO” a qualquer tipo de reeleição. Chega de empreguismo, nepotismo, superfaturamento, desperdício do dinheiro público, violências nas ruas, absurda desigualdade social.. Com o nosso voto, podemos fazer justiça de todos os corruptos que foram poupados pelo corporativismo político: não reelegemos ninguém! Será a vingança do povo! A abstenção e o voto em branco ou nulo só favoreceriam os atuais detentores do poder, pois eles têm garantido os votos de seus redutos eleitorais. Com fé e coragem, nas próximas eleições, o nosso povo sofrido, em lugar de vender seu voto, irá eleger gente nova e honesta, não infectada pelo câncer maligno que há tempo está corroendo o tecido do nosso sistema político. Não ao Continuísmo: Muda Brasil!

16- Formas de Governo (dia 22/ 05/ 2006) “Democracia é quando eu mando em você, Ditadura é quando você manda em mim” (Millôr Fernandes) A experiência dos últimos anos nos ensinou que uma Nação não se faz com um gênio no poder, nem com um Presidente paternalista e demagogo, que distribui esmolas à plebe inculta em troca do voto popular para se manter no poder. A base de uma verdadeira nacionalidade é um povo trabalhador e consciente da importância do voto para dirigir os destinos do seu país. “Política” vem do termo grego polis, que significa “cidade”, indicando a forma de governar uma Nação, um Estado, um Município, um lar, enfim qualquer agrupamento social. Neste sentido geral, a política como administração de uma economia comum é da responsabilidade de todos os cidadãos. Segundo Lênin, o pai do idealismo comunista, “toda cozinheira deve aprender como se governa um País”, afirmando que “o Estado somos nós”. O sábio grego Aristóteles, na obra intitulada Política, apresenta sua teoria do Estado, achando também ele, como seu mestre Platão, que o homem é um “animal político”, diretamente responsável pelo destino da República, a “coisa pública”. Ele ensina que qualquer cargo público é inseparável da postura ética, visto que o homem só pode ser feliz vivendo “virtuosamente” em sociedade. Aristóteles analisa as três principais formas de governo: Monarquia (governo de um único Soberano), Aristocracia (governo de um grupo de nobres) e Democracia (governo dos escolhidos pelo povo). Cada uma das três formas pode ser boa ou degenerar: a monarquia originando a tirania; a aristocracia promovendo a oligarquia; a democracia caindo na demagogia. Já foi dito que a democracia não é uma boa forma de governar, mas também que até agora não foi inventada uma melhor. O filósofo Platão se perguntava que democracia existia em Atenas, cujos governantes condenaram à morte o mais sábio e justo dos homens, seu mestre Sócrates! A verdade é que, para o bom funcionamento de um regime democrático, é necessário que o povo seja esclarecido, não se deixando manipular por grupos econômicos ou por ideologias religiosas. No Brasil, criou-se um eterno “círculo vicioso”: o povo não sabe votar porque não tem cultura e não tem cultura porque não sabe votar! Com efeito, à classe política não interessa investir no ensino fundamental e em outras reformas de base, pois o sustento do seu curral eleitoral é a ignorância do povo. Pouco adianta mudar de Presidente, Governador ou Prefeito, se são os Senadores, Deputados e Vereadores que fazem as leis. Os políticos, após tomarem posse dos cargos públicos, dificilmente consultam suas bases e atendem às verdadeiras necessidades da grande massa popular. Cada qual procura levar vantagens imediatas, entregando-se ao nepotismo e utilizando o dinheiro público para recompensar os compadres que promoveram ou irão promover suas campanhas eleitorais, deixando as reformas estruturais sempre para seus sucessores. Mas, por ruim que seja, qualquer modalidade democrática de governo é sempre preferível a regimes ditatoriais. Pelo menos existe a vantagem da possibilidade de mudança a cada eleição, submetendo o governante à apreciação pública. Refletindo um pouco, a melhoria das instituições democráticas está nas mãos do povo, se tiver consciência da importância do seu voto. A massa popular, em lugar de se queixar da sorte, poderia fazer justiça com suas mãos, execrando os políticos desonestos e exigindo justiça social no lugar de esmolas. Por sugestão de amigos, devido à crise institucional provocada pela corrupção generalizada e impune, deixamos o prometido estudo sobre os mitos para mais adiante, começando agora uma série de artigos acerca da nossa realidade mais atual e palpitante, com o intuito de contribuir para a formação de uma consciência de cidadania. Falaremos da necessidade da não-reeleição para evitar a formação de currais eleitorais; da instituição do bipartidarismo para garantir a governabilidade; da educação de nossas crianças em tempo integral; do planejamento familiar; do Estado laico; da privatização da Saúde e da Previdência; do trabalho e da justiça social; do transporte público por ferrovias e metrôs etc. Quem se interessar pela matéria, pode ler estes assuntos também na “Campanha Nacional para a construção de uma Cidadania”, no meu site.

15 - Política é Profissão? (08/05/2006) “O homem é um animal político” (Platão) A experiência dos últimos anos nos ensinou que uma Nação não se faz com um gênio no poder, nem com um paternalista demagogo que distribui esmolas à plebe inculta. A base de uma verdadeira nacionalidade é um povo trabalhador e consciente. Por sugestão de amigos, devido à crise institucional provocada pela corrupção generalizada e impune, deixamos o prometido estudo sobre os mitos para mais tarde, começando uma série de artigos acerca da nossa realidade mais atual e palpitante. “Política” vem do termo grego polis, que significa “cidade”, indicando a forma de governar uma Nação, um Estado, um Município, um lar, enfim, qualquer agrupamento social. Neste sentido geral, a política como administração de uma economia comum é da responsabilidade de todos os cidadãos. Segundo Lênin, o pai do idealismo comunista, “toda cozinheira deve aprender como se governa um País”, afirmando que “o Estado somos nós”. O sábio grego Aristóteles, na obra intitulada Política, apresenta sua Teoria do Estado, achando também ele, como seu mestre Platão, que o homem é um “animal político”. Ele ensina que qualquer cargo público é inseparável da postura ética, visto que o homem só pode ser feliz vivendo “virtuosamente” em sociedade. Aristóteles analisa as três principais formas de governo: Monarquia (governo de um rei), Aristocracia (governo de um grupo de nobres) e Democracia (governo dos escolhidos pelo povo). Cada uma das três formas pode ser boa ou degenerar: a monarquia originando a tirania; a aristocracia promovendo a oligarquia; a democracia caindo na demagogia. Já foi dito que a democracia, às vezes, não é uma boa forma de governar, mas também que até agora não foi inventada uma melhor. O filósofo Platão se perguntava que democracia existia em Atenas, cuja política permitiu que se condenasse à morte o mais sábio e justo dos homens, seu mestre Sócrates! A verdade é que um governo 100% democrático é uma utopia pois, nas eleições púbicas, o povo é manipulado pela mídia, pelo marketing eleitoral e os escolhidos (vereadores, deputados, senadores e governantes), com algumas raras exceções, não defendem os interesses da coletividade, mas dos grupos econômicos que os elevaram ao poder. No fundo, tudo é enganação, jogo de interesses. O humorista Millôr Fernandes diz que “Democracia é quando eu mando em você, Ditadura é quando você manda em mim”. Já foi dito também que a política é como lavar janelas, “a sujeira sempre está do outro lado”. Após tomarem posse dos cargos públicos, os políticos dificilmente consultam suas bases e atendem às verdadeiras necessidades da grande massa popular. Cada qual procura levar vantagens imediatas, entregando-se ao nepotismo e favorecendo os compadres, deixando as reformas estruturais para seus sucessores. Como dizia Platão, “se alguém tiver o privilégio de mentir, este será o governante”. Daí a concepção popular de que todo político não presta pois, se alguém pessoalmente não mete a mão no erário público, ele acaba se tornando conivente ou omisso num sistema onde reina a corrupção. Afinal, ninguém conseguiria roubar sozinho, se o aparato burocrático não o ajudasse ou não fechasse os olhos. Mas, por ruim que seja, qualquer modalidade democrática de governo é sempre preferível a regimes ditatoriais. Pelo menos existe a vantagem da possibilidade de mudança periódica a cada eleição, submetendo o governante à apreciação pública. Portanto, a melhoria das instituições democráticas está nas mãos do povo, se tiver um pouco de discernimento. A massa popular, em lugar de viver se queixando, poderia muito bem fazer valer seu poder. Se a grande praga nacional é a classe política, pau nela! Se não se pode eliminar o político, pelo menos que se tente evitar o “profissional” da política. E é muito simples: só não votar nos mesmos, escolhendo sempre gente nova, não importa a que partido o candidato pertença, para evitar a formação de currais eleitorais. Sobre a necessidade da “não-reeleição” falaremos mais no próximo artigo. Quem se interessar pela matéria, pode ler outros assuntos na “Campanha Nacional para a construção de uma Cidadania”, no meu site.

14 - Mito e Realidade (01/05/2006) “O mito é o nada que é tudo” (Fernando Pessoa) Em artigos anteriores, apresentamos o mito de Júpiter como arquétipo da prepotência e do autoritarismo patriarcal, estatal e internacional. Procuraremos relevar, em nossas conversas semanais, outros mitos fecundadores da nossa civilização: Apolo, Dioniso, Édipo, Afrodite, Hércules etc. Antes, porém, tentaremos definir o mito. O termo grego mythos significa uma “história” fantástica, de origem anônima e coletiva, inventada para tentar explicar fenômenos naturais ou comportamentos existenciais, anteriormente ao avanço da filosofia e das ciências. Assim, por exemplo, o povo grego primitivo, não conhecendo a natureza do raio, imaginava ser uma seta incandescente de Júpiter, fabricada por Vulcano, o deus do fogo, pela qual o pai dos deuses punia os homens faltosos. A narrativa mítica apresenta aspectos divinos de acordo com concepções antropomórficas da natureza cósmica e da vida humana. Contrariamente ao que nos ensinam as diferentes religiões, não é Deus que cria os homens, mas são estes que criam os deuses a sua imagem e semelhança. Na África, a imagem da Virgem Maria é de cor preta. As divindades são apenas projeções do inconsciente coletivo, que inventa figuras transcendentais para expressar plasticamente seus desejos e seus temores. Mas o mito, apesar de inverossímil, não deixa de ser uma “crença-verdade”. O estudioso Mircea Eliade, na famosa obra Mito e Realidade, afirma que a narrativa mítica é considerada verdadeira, uma vez que o mito, depois de criado, passa a ser objeto do culto popular, especialmente nas sociedades mais primitivas. Ele é verdadeiro porque é vivido através dos atos litúrgicos. Os rituais, ao rememorarem as façanhas realizadas pelas divindades, exercem um grande fascínio sobre os fiéis, que se sentem tomados por um poder sagrado. Com a passagem da tradição oral para a escrita, a palavra mítica adquire o caráter de dogma de fé, não admitindo contestação: “o que está escrito, é a verdade”! Mesmo quando o mito contraria a lógica, pois sua criação é anterior à formação da consciência reflexiva. Trata-se de uma “protofilosofia”, pois a resposta à pergunta do homem sobre o universo e seus fenômenos é dada não pelo pensamento conceptual, mas pela fantasia criadora de imagens. Daí a relação profunda entre mito, poesia e infância, categorias estas que superam os limites do tempo e do espaço. Com a evolução da sociedade, o homem começa a pensar e a reflexão consagra o fim da inocência mítica. Aos poucos, vai acontecendo a separação entre o eu, Deus e o mundo, concepções não distintas na época mítica. Uma vez perdidas as verdades coletivas e absolutas do estágio mítico, cada homem é obrigado a descobrir seus próprios valores de vida. O mito, não mais vivido, perde sua sacralidade e torna-se apenas uma lenda representada artisticamente no poema, no conto, no teatro. Com o progresso das ciências, o papel do mito passa a ser exercido por poetas e artistas. A estes cabe lançar mão da fantasia para criar mundos imaginários, onde as aspirações do inconsciente coletivo possam se realizar. O mito pode ser definido como uma “macro-metáfora”, pois é a criação de uma história ficcional que estabelece parentescos entre realidades diferentes, para captar parcelas de sentido do mundo. Em contrapartida, qualquer texto de arte literária encerra aspectos míticos pelo concurso da imaginação, que desafia a lógica existencial. Os arquétipos míticos da luta e do triunfo do princípio do bem sobre o princípio do mal se encontram na concepção do herói épico, na idealização do cavaleiro andante da novela medieval, na inspiração do romance de amor e de aventura, na literatura de cordel, no duelo entre o detetive e o criminoso no conto policial, na configuração do herói da ficção científica, na elaboração de fábulas e personagens da telenovela. Fernando Pessoa, no poema Ulisses, ao recontar a lenda do herói grego que, durante a viagem de volta da Guerra de Tróia, teria fundado a cidade de Lisboa (evolução fonética do nome Ulissipona, “cidade de Ulisses”), afirma que o mito é o “nada” (pois não existiu no plano histórico), mas é “tudo”, porque foi a figura aventurosa do herói grego que estimulou os lusitanos a desbravar “os mares nunca dantes navegados”, deslocando o eixo do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico.

13- Choque de Civilizações (24/04/2006) “A persistência de um costume está, geralmente, em relação direta com seu absurdo’”. (Marcel Proust) A sociedade humana passou por diversos ciclos de cultura, que a levaram a profundas transformações: nômade, agrícola, guerreira, comercial, industrial. Atualmente, vivemos na era da globalização, sob a égide de uma tecnologia de ponta que, por um sistema rápido de informação, aproxima civilizações muito diferentes, mostrando o requinte do luxo ao lado da extrema miséria. O polêmico historiador norte-americano David Landes, no seu livro A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998), retoma, de uma forma mais ampla e fora do conflito religioso, a tese já clássica de Max Weber (1864-1920), exposta na famosa obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Para os dois estudiosos, a disparidade de crescimento entre os diversos países dos cinco continentes tem como causa fundamental a falta de cultura e do espírito de trabalho. A análise histórica da decadência de civilizações outrora florescentes (Egito antigo e Islamismo medieval, por exemplo) apresenta como elementos determinantes a política absolutista, o baixo nível do ensino público, a projeção da felicidade humana no além-túmulo, a falta de liberdade e de democracia, o espírito quietista e contemplativo. Os países que evoluíram foram os que conseguiram superar as tradições fundamentadas na crença em deuses e soberanos, investindo maciçamente na educação laica e no avanço científico. O espírito de liberdade e de democracia levou à formação de nações economicamente sólidas: USA, Japão, Alemanha e outros países europeus. A história nos ensina que só uma forte cultura laica e democrática pode levar a um desenvolvimento social e artístico duradouro por atingir a grande massa de um povo. E nenhuma nação pode propiciar felicidade a seus cidadãos, se estiver circundada por povos economicamente subjugados, pois seu poderio absoluto vai semear ódio e vingança, provocando guerras e terrorismo. O lado positivo da globalização (aumento da riqueza mundial) é prejudicado por aspectos negativos: doenças localizadas que se espalham rapidamente, tornando-se pandemias; maior fluxo de emigrantes que, abandonando regiões miseráveis, invadem países mais desenvolvidos, causando desemprego e conflitos étnicos. É preciso entender que ninguém pode ser feliz no meio da miséria. O pesquisador americano Samuel Huntington, pelo influente livro O Choque das Civilizações, publicado em meado dos anos 90, é considerado o profeta da era atual, pois parece ter previsto o desastre de 11 de setembro de 2001, quando o terrorismo islâmico derrubou as Torres Gêmeas de Nova York, ao escrever que haveria um choque iminente entre o Ocidente e o mundo muçulmano, que parou no tempo. Ele considera a civilização ocidental como a mais progressista, pois fundamentada em princípios sólidos, herdados das instituições constitucionais que se sucederam à Revolução Francesa (1789): democracia liberal, mercado livre e forma de governo laico. Através do processo de Globalização, a civilização norte-americana tenta impor sua cultura (e seu mercado!) aos outros povos. O exemplo bem sucedido foi o milagre da Comunidade Européia. Mas, no Oriente Asiático, a missão é mais difícil pelo apego a tradições religiosas milenares. A história nos ensina que todo regime teocrático é “involutivo”, pois qualquer tipo de “fundamentalismo”, sendo dogmático, é fixo e retrógrado, impedindo o avanço científico e o livre exercício da liberdade. Veja-se, por exemplo, o atraso em que ficou a Europa durante a Alta Idade Média. Por mais de seiscentos anos (do séc. V ao XI), sob a égide da Igreja Católica, afogada a esplêndida cultura greco-romana, nenhum país europeu produziu um filósofo, cientista ou artista de renome! Alguém conhece algum homem ilustre que viveu durante esses longos seis séculos? Tanto atraso não ofende a inteligência humana? O fanatismo religioso, de qualquer credo, é a perene causa da guerra, da injustiça, da miséria, da ignorância, da escravidão moral e econômica de um povo. Deus está muito bem lá no Céu, mas quando desce na Terra e assume o poder público pelas mãos (ou lábias!) de padres, pastores, talibans ou aiatolás, é uma desgraça cívica, na certa!

12- O mito de JÚPITER (10/04/2006) “O Estado sou Eu” (Luís XIV) Zeus na Grécia e Júpiter em Roma, o maior personagem da mitologia greco-latina foi definido pelo poeta grego Homero como “o pai dos deuses e dos homens”. A “história” mítica de Júpiter é muito semelhante à de seu pai Saturno (Cronos), o que salienta o caráter repetitivo dos mitos. Como Saturno desposou a irmã Cibele (A Grande Mãe), assim Júpiter casou-se com a irmã Juno (Hera). Mas, além deste matrimônio "legítimo", foram atribuídas a Zeus várias relações extraconjugais com deusas, ninfas e mulheres mortais, sendo inumerável sua prole. Sua fama de conquistador incorrigível aparece artisticamente retratada na comédia Anfitrião, do escritor romano Plauto, encenada no Brasil pela companhia teatral de Tônia Carrero e Paulo Autran com o título “Um deus dormiu lá em casa”. A peça narra o estratagema usado por Júpiter para seduzir a linda e virtuosa Alcmena, uma princesa de Micenas, casada com o soldado Anfitrião. Usando do seu poder divino, fez com que o jovem esposo fosse para a guerra. A seguir, tomando a figura de Anfitrião, Júpiter apareceu a Alcmena e fez amor com ela. Na manhã seguinte, o marido verdadeiro estranhou a frieza sexual de Alcmena. Esta, então, disse-lhe que estava exausta, pois passara com ele tórridas horas de sexo quando, na noite anterior, o marido, ao voltar da guerra, lhe trouxera o rico colar que estava em cima da cômoda. A comédia termina com a revelação do engano, inocentando Alcmena pelo adultério. Na cultura ocidental, o personagem Anfitrião passou a significar o hospedeiro, aquele que faz as honras de casa. O pai dos deuses tinha como atributos principais a onipotência e a previdência. A iconografia o representa como homem maduro, majestoso, barbudo, que tem como emblema o raio (símbolo do domínio sobre as forças atmosféricas e de sua força vingativa), o cetro (o poder) e a águia (a longividência). Na Psicologia, o mito de Júpiter passou a exprimir o arquétipo do chefe da família patriarcal, denominando "complexo de Júpiter" à tendência do subconsciente ao autoritarismo, que pode se encontrar na figura do governante, do pai, do professor, de qualquer chefe, enfim. O abuso do poder pode criar uma neurose, que ataca principalmente os políticos. Todo autoritarismo, de esquerda ou de direita, acaba estabelecendo relações desumanas, estimulando a corrupção e a violência. O despotismo se encontra não apenas nos governos absolutistas (monarquias hereditárias, ditaduras militares, oligarquias religiosas), mas também em regimes democráticos. No Brasil, podemos apontar casos recentes de manifestação pública do mito de Júpiter: um coronel do exército que interrompe a decolagem de um avião civil e ordena que dois passageiros cedam seus lugares para ele e a esposa; um juiz do Supremo Tribunal que manda calar a boca a um depoente numa seção de CPI em pleno Parlamento; um Ministro de Estado que solicita a quebra do sigilo bancário de um caseiro que o desmentiu; um Presidente da República que usa a Máquina do Estado (o dinheiro dos contribuintes) para fazer sua propaganda eleitoral. Outras formas de atualização do mito de Júpiter podem ser encontradas no bullyng americano e na ação dos pitboys cariocas: um tipo de comportamento cruel e ameaçador, muito usado entre traficantes de drogas, marginais, presidiários; pois a postura jupteriana é muito mais generalizada do que se possa pensar. Encontra-se na violência familiar e na prepotência dos poderosos, como também nos garotos musculosos que, especialmente depois de beber, assediam mocinhas em boates, tentando fazer o que elas não querem. Enfim, sofre do complexo de Júpiter todo o ser humano que lança mão da lei da selva, da razão do mais forte, não sendo educado a respeitar o direito e a vontade do semelhante. É uma vergonha para todo o gênero humano a recente condenação à morte de Abdul Rahman, do Afeganistão, por rejeitar a fé islâmica. Que todos os fanáticos do mundo reflitam sobre o que disse Napoleão: “a maior parte daqueles que não querem ser oprimidos quer ser opressora”.

11 - ABELARDO e HELOÍSA (03/04/2006) Apaixonar-se é ingressar em um estado de anestesia da percepção (H.L.Mencken) O romance de Pedro Abelardo (1079-1142), teólogo, filósofo e lingüista, e a bela Heloísa, sobrinha de um cônego muito rico, começou em Paris, no início do séc. XII. Abelardo, um clérigo pobre, formara-se pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, especialmente árabes, numa época de forte poder da Igreja Católica Romana. Para conquistar o amor da bela jovem, ela também amante da cultura, Abelardo se tornou amigo do cônego Fulbert, tio e tutor de Heloísa, que logo o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca de aulas noturnas. Contando com a confiança de Fulbert e a cumplicidade de uma criada, os dois ficavam cada vez mais a sós e a atração cultural, como era de se esperar, levou a uma atração também carnal. Um dia Abelardo tirou o cinto que prendia a túnica de Heloísa e os dois se amaram apaixonadamente. A partir desse momento, Abelardo começou a desinteressar-se de tudo, só pensando em Heloísa. Mas aconteceu que, quando a criada Sibyle adoecera, outra serva encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa e a entregou a Fulbert, que imediatamente expulsou o mestre de sua casa. No entanto, isso não foi suficiente para separar os jovens amantes. Heloísa, estudiosa também de ervas medicinais, preparava poções para seu tio dormir e se encontrava com Abelardo no porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois amantes. Pela traição de outra criada, uma noite Fulbert pegou os jovens no flagrante. Heloísa foi espancada e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim, o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu e eles passaram a se encontrar onde podiam, especialmente nas sacristias e confessionários das catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia freqüentar sem acompanhantes. A jovem acabou engravidando e, para evitar o escândalo, o cônego Fulbert concordou com o casamento, mas, para lavar a honra da família, mandou castrar o amante da sobrinha. Após essa tragédia, Abelardo e Heloísa jamais voltaram a se falar. Ela ingressou no convento de Santa Maria de Argenteul, caindo em profundo estado de prostração, só retornando à vida aos poucos, conforme iam ouvindo notícias de melhora de seu amado. Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas. Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo. Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositar Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada da amada. Esta história de amor infeliz da França, registrada nas Cartas de Abelardo e Heloísa, junto com a lenda de Tristão e Isolda, o par romântico do ciclo medieval da Bretanha, inaugura na Europa o mito da paixão fatal e da morte como único lugar seguro para a união de dois seres apaixonados. O tema, que retoma o mito pagão de Eros (Amor) e Tânatos (Morte), teve muito sucesso na cultura ocidental, explorado exemplarmente pelo dramaturgo inglês Shakespeare, na sua famosa tragédia Romeu e Julieta. Ainda hoje, o drama medieval deste amor sublime continua sendo representado, direto ou indiretamente, no teatro, no cinema e na televisão, pois é a expressão artística do confronto entre o código individual e natural (o direito à liberdade de pensar, sentir, amar) e o código social e cultural, que impõe restrições ao livre arbítrio, através de normas e preconceitos de ordem étnica, religiosa ou econômica.

10- Uma Prece ao nosso Presidente (Bom Dia, 27/03/2006) LULA, pelo amor de nossos netos, não cometa o mesmo crime de “lesa Pátria” do Fernando Henrique Cardoso: não tente se reeleger, pois o Brasil não tem Dono! O povo acreditou na sua promessa de fazer reformas estruturais para melhorar a vida da grande massa carente. Mas você, picado pela “mosca azul” do poder e enlevado pela vaidade pessoal, comprou o avião do ano e começou a viajar pelo mundo, pregando a fome zero, em busca de um assento na ONU. Enquanto isso, sua maquina governamental e os chefões do PT assaltavam o erário público, curtindo velhas e novas práticas de corrupção ativa e passiva, para se perpetuarem no poder. Quando a mídia, que constitui o “quarto poder”, o único que até agora não vendeu sua alma aos poderosos, começou a tornar pública toda a podridão das instituições políticas, o governo do PT quis abafar a roubalheira, tentando impor a lei da mordaça e impedir a instalação de CPIs. Mas, felizmente, a sociedade civil reagiu e exigiu a averiguação das denúncias. Os fatos revelados foram estarrecedores e a Presidência da República, sentindo-se abalada, primeiro negou a existência da corrupção, depois admitiu as falcatruas, mas afirmou “que não sabia”; mais tarde sacrificou alguns bodes expiatórios, prometendo fazer justiça; em seguida, disse que se tratava de erros e não de crimes, que errar é humano e caixa dois é normal, ficando “tudo como antes no quartel de Abrantes”. Agora, na proximidade de novas eleições, o Presidente, fingindo que não é candidato à reeleição, continua enganando a boa fé dos brasileiros mais humildes e desinformados, oferecendo a esmola da Bolsa-Família, enquanto lhes suga o sangue pela apropriação indevida do dinheiro público. Queremos Justiça e não Caridade! Soluções estruturais e não paliativos emergenciais! Num pequeno estudo, que se encontra no meu site, apresentei as principais reformas de base esperadas, há mais de 500 anos, pela grande maioria dos cidadãos brasileiros: 1) necessidade de adoção do Bipartidarismo para garantir a governabilidade; 2) proibição da Reeleição para acabar com os currais eleitorais; 3) Campanha eleitoral reduzida e gratuita ; 4) Educação básica mediante o Ensino Integral; 5) Planejamento familiar e paternidade responsável; 6) Estado laico, sem interferência de éticas religiosas; 7) privatização da Saúde e da Previdência social; 8) enxugamento da Máquina estatal e fim de empregos sem concursos; 9) Salário máximo não superior ao valor de dez salários mínimos, com base na “meritocracia”; 10) prioridade ao Transporte coletivo por Ferrovias e Metrôs; 11) Reforma agrária eficiente; 12) taxa de Juros na média internacional. Tais reformas, evidentemente, são a médio e longo prazo mas, se nunca se iniciam, como podem ser realizadas? Infelizmente, os homens que fizeram e fazem política no Brasil sempre se preocuparam apenas com problemas regionais, tentando agradar seus redutos eleitorais e as entidades que patrocinaram suas campanhas. É preciso acabar com isso, pois a Política, como o Sacerdócio, deve ser exercida por vocação e não por profissão. Quem quiser ficar rico tem que trabalhar, não fazer política. Todos os mandatos públicos deveriam ser por pouco tempo e exercidos de graça, o Estado pagando apenas as despesas comprovadas. Você, Lula, filho sofrido deste povo atavicamente castigado que, quando líder sindicalista e na oposição, sempre se pronunciou contra o continuísmo no poder, por que, agora, não dá o exemplo de desprendimento e honradez, reconhecendo que decepcionou o povo que o elegeu e que, portanto, renuncia ao direito da reeleição? Por que não sacrifica seu “ego” em prol da nossa Pátria, que você diz tanto amar? O Brasil não agüentaria um Presidente populista, tipo Fidel Castro, Chaves ou Morales, que queira se perpetuar no poder instilando a luta de classe, lançando o ódio de pobres contra ricos, de analfabetos contra intelectuais, de nordestinos contra sulinos. Só uma maior justiça social poderá salvar nossa democracia, que tem de se tornar uma “meritocracia”, cada qual ganhando conforme seu trabalho e produtividade, sem privilégios, parasitismo ou exploração, de nenhum lado. Estamos cansados de tantos discursos hipócritas e demagogos. Não queremos mais engolir “pizzas” por mais quatro anos: quem roubou o dinheiro dos nossos impostos tem que pagar. Errar é humano, mas permanecer na mamada é criminoso. A justificativa (a mesma de FHC e de todos os governos com tendência ao autoritarismo) de que quatro anos não são suficientes para realizar reformas de base não deixa de ser um pretexto ofensivo à inteligência do nosso povo. A democracia moderna não precisa de um líder carismático, paternalista, mas de um Parlamento composto de gente honesta e competente, disposta a promover o bem da coletividade, não importa a qual partido o Presidente pertença, nem o tempo do seu mandato. As reformas estruturais de médio e longo prazo deverão ser continuadas pelo seu sucessor. Pouquíssimas pessoas conhecem o nome do Presidente atual da Alemanha, da Suécia ou da Suíça e, entretanto, são os países mais avançados do mundo. E isso porque lá a democracia chegou a um estágio tal que não precisa de líderes, de nenhum salvador da pátria. O Chefe de Estado muda periodicamente, mas a estrutura governamental se altera muito pouco, porque cargos e funções públicas são ocupados por técnicos e profissionais de carreira. A história nos ensina que quando mais tempo um líder carismático ficar no poder, maior é a desgraça para um país. Veja, apenas por exemplo, os terríveis danos causados por Salazar a Portugal ou por Fidel castro a Cuba. Como disse o dramaturgo B.Brecht, “infeliz o país que precisa de um herói”! Quem necessita de um “pastor” é uma manada de ovelhas, não um povo civilizado! Em verdade, é preciso renovar não apenas o Presidente da República, mas também Senadores, Deputados, Governadores, Prefeitos, Vereadores, não importa o partido a que pertençam. Só fazendo um “limpa” poderemos extirpar o câncer político que há muito tempo vem corroendo nosso tecido social, dando chance para gente nova, honesta e competente, disposta a iniciar as reformas necessárias para a implantação de uma democracia justa, com base no trabalho produtivo de seus cidadãos. Caro Lula, sua volta à vida privada seria um exemplo a ser imitado por todos os outros caciques da política brasileira. Mostre a nobreza de sua alma, sendo diferente!

9- ULISSES, de Fernando Pessoa (16/03/2006) Após a explicação do fenômeno da heteronímia, isto é, dos nomes diferentes com que Fernando Pessoa assinou coletâneas de poemas, e a apresentação da poesia dos três heterônimos principais (Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos), encerramos o estudo da poética do grande escritor lusitano, analisando um poema assinado pelo “ortônimo”, Fernando Pessoa ele mesmo, com seu nome verdadeiro. A biografia de Fernando Pessoa, como pessoa física, pode ser reduzida a alguns dados essenciais: nasceu em Lisboa em 1888, ficou órfão de pai em 1893 e, dois anos depois, contraindo a mãe novas núpcias com o cônsul português em Durban, se transferiu para a África do Sul, onde ficou dez anos, completou os estudos secundários e se familiarizou com a língua e a literatura anglo-americana. Suas leituras preferidas foram os poetas Milton, Byron, Keats, Poe, traduzindo e escrevendo poemas, cartas e trabalhos críticos e filosóficos em inglês. Em 1905 voltou definitivamente para Portugal, de onde nunca mais saiu. A coletânea de poesias Mensagem, a única obra publicada em vida, juntamente com o Cancioneiro, contém a produção poética de Fernando Pessoa ‘‘ele mesmo’’ e expressa sua faceta lírico-patriótico-saudosista, nas pegadas dos melhores escritores da história literária de Portugal. A obra Mensagem foi estruturada para oferecer um painel simbólico e artístico da história das grandezas de sua terra. Divide-se em três partes, com várias subdivisões. A primeira parte, “Brasão”, contém uma série de poesias que enaltecem os fundadores da nacionalidade lusitana; a segunda parte, “Mar português”, tem como assunto poemático as conquistas ultramarinas de Portugal; a terceira parte, “O encoberto”, refere-se ao mito do Sebastianismo, formado a partir de um fato histórico. Em 1578, o rei D.Sebastião, que comandava o exército português derrotado pelos mouros na batalha de Alcácer-Quibir, desapareceu e seu corpo nunca foi encontrado. A crença popular no regresso do Soberano fez surgir um novo messianismo: D. Sebastião voltaria, tornando Portugal um país feliz e poderoso. A crença se difundiu no Brasil e surtos de Sebastianismo foram acontecendo, volta e meia, especialmente no Nordeste. Na primeira metade do séc. XIX, registram-se, em Pernambuco, os movimentos da Cidade do Paraíso Terrestre e do Reino Encantado. Para o estudo de Fernando Pessoa ortônimo, escolhemos e comentamos um poema extraído da primeira parte do livro Mensagem: Ulisses O mito é o nada que é tudo. O mesmo Sol que abre os céus É um mito brilhante e mudo — O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou, Foi por não ser existindo. Sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos criou. Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecundá-la decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre. O título do poema tem como referente extratextual um dos personagens mais famosos da mitologia grega, Ulisses. Sem o conhecimento deste mito é impossível entender o texto acima, como veremos pela análise da segunda estrofe. No primeiro quinteto, o poeta nos dá a sua definição do mito de uma forma geral, fundamentada numa identificação de termos contrários: O mito é o nada que é tudo Este primeiro verso evidencia uma figura retórica, chamada “oxímoro”, que se repetirá ao longo do poema todo, formada por uma predicação “impertinente”, pois associa, no sintagma, termos opostos no paradigma. Neste verso inicial temos duas formas oximóricas encadeadas: 1) “O mito é”, que indica a existência, e a sua predicação “o nada”, que indica a não-existência; 2) “nada”, que indica uma totalidade negativa, e sua predicação adjetiva “tudo”, que indica uma totalidade positiva. Para entendermos a figura retórica, o tropo de sentido, é preciso estabelecer a escala de valores em que o mito pode ser considerado um nada e uma outra escala de valores pela qual o mito é tudo: o mito é nada do ponto de vista da realidade histórica, porque é fruto da imaginação popular que inventa biografias e façanhas acerca de entes sobrenaturais que não tiveram existência real; o mito é tudo do ponto de vista espiritual, porque nenhum povo pode viver sem crenças que lhe expliquem a causa dos fenômenos e lhe determinem o comportamento a seguir. Ainda na primeira estrofe, notamos outra forma oximórica: o “Sol”, que é considerado também um mito (o Hélios grego, o símbolo do calor, da vida, do renascimento diário), tem como aposto “o corpo morto de Deus // vivo e desnudo”. A oposição de corpo de Deus “morto” e “vivo”, ao mesmo tempo, pode ser entendida da seguinte maneira: Deus é visto como morto porque coisificado num astro e vivo porque é a sua luz que dá calor e vida às criaturas. A segunda estrofe refere-se à ação de um mito específico. Conforme a lenda, Ulisses teria chegado na costa atlântica e dado origem à cidade de Lisboa, cuja etimologia é Ulissipona (“a cidade de Ulisses”), nome que se encontra na capa da primeira edição da obra Mensagem, onde está inserido o poema Ulisses. Sem o conhecimento deste personagem mitológico o poema não pode ser entendido. A figura de Ulisses está ligada à Guerra de Tróia e à tortuosa viagem de volta do herói para sua pátria, a ilha de Ítaca, e para sua fiel esposa, Penélope. Ele é o protagonista da epopéia homérica A Odisséia (Ulisses é o nome latino do grego Odisseu). Fernando Pessoa, ao compor este poema, deve ter-se lembrado do episódio de Ulisses na gruta do ciclope Polifemo. Preso com seus companheiros gregos, quando interrogado pelo gigante, o herói astutamente respondeu:: “Meu nome é Ninguém”. Assim, quando Polifemo, cegado por Ulisses, ao invocar a ajuda dos outros ciclopes, grita: “Ninguém me cegou, Ninguém quer matar-me”, não é atendido pelos irmãos, que pensam que Polifemo estava delirando ou blefando. Ora, como veremos, este poema está baseado na oposição dialética do “ser” e do “não-ser”, do “tudo” e do “nada”. “Este”, do primeiro verso, está ligado anaforicamente a Ulisses, título do poema; o advérbio de lugar “aqui” indica a proximidade de quem fala, referindo-se a Portugal, assim como “nos”, do último verso, engloba todo o povo português. Os três versos medianos são formados por três oxímoros de contraditoriedade: Ulisses existiu e não existiu, foi e não foi suficiente, chegou e não chegou. Também aqui, para entendermos as oposições dialéticas, é preciso distinguir duas escalas de valores diferentes: Ulisses não existiu no plano histórico, real, porque é um mito; mas ele existiu no plano espiritual, porque a crença numa origem sobrenatural estimulou o povo português a imitar as façanhas de seu fundador, aventurando-se no mar para o conhecimento e a descoberta de novos mundos. A última estrofe tem como momento ideológico a proliferação do mito, que fecunda a realidade e se espalha entre os povos. A oposição da parte espiritual do homem, alimentada pelo mito, e da sua parte material, expressa pelo advérbio de lugar “em baixo”, é apresentada mediante um dúplice oxímoro de contrários: “vida” x “morte” e “metade” x “nada”. Evidentemente, “nada” sendo uma totalidade negativa, não pode ter uma “metade”; mas o poeta definiu o mito como um nada-tudo e portanto a vida “metade de nada” é igual à vida “metade de mito”. Quer dizer, a vida humana é regida, de um lado, pela força do mito e, de outro lado, pela força da realidade. O que “morre” no ser humano é a sua parte material, que é perecível, ao passo que o elemento mítico, por ser espiritual, se perpetua continuamente no seio da humanidade, sendo fator de seu progresso civilizacional. À margem da análise semântica do poema, notamos o estreito paralelismo existente entre a forma da expressão e a forma do conteúdo, percebível especialmente pelo uso do léxico (escolha das categorias gramaticais): o poeta, na primeira estrofe, quando quer apenas “definir” o mito, usa só substantivos (que indicam a existência) e adjetivos (que indicam o modo de existência), com ausência total de verbos, a não ser na forma copulativa “é” ou na forma adjetiva “que abre”; na segunda estrofe, para salientar “a ação” do mito, usa apenas verbos (que indicam o fazer), com ausência total de substantivos e de adjetivos; na terceira estrofe, para indicar “a proliferação” do mito, troca o masculino “mito” pelo feminino “lenda”, gênero marcado e apto a sugerir o ato da procriação. É essa capacidade de adequação do significante ao significado que torna Fernando Pessoa o poeta mais “estruturante” da literatura portuguesa moderna. Apresentamos, em rápidos esboços, a plurifacetação de Fernando Pessoa, cada heterônimo mostrando um ângulo diferente da concepção humana e literária do grande poeta português. Esta diversidade, porém, não anula a unidade da personalidade poética de Fernando Pessoa. No fundo, o tradutor (Fernando Pessoa), o pastor (Alberto Caeiro), o médico (Ricardo Reis) e o engenheiro (Álvaro de Campos), apesar de suas características individuais, devem ser considerados como configurações diferentes de um mesmo ser, preocupado em expressar artisticamente nossos problemas existências.

8-Fernando Pessoa /Álvaro de Campos (09/03/2006) Para terminar o estudo dos “heterônimos” (ver os artigos dos dias 12 e 19 de janeiro, 09 de fevereiro e 02 de março), as diversas personalidades que Fernando Pessoa encontrou dentro de si e a que deu vida própria, apresentamos a poesia de Álvaro de Campos. Também este heterônimo é imaginado como discípulo do mestre Caeiro, só que de formação e de tendência apostas às de Ricardo Reis, com o qual trava constantes lides acerca do ideal de vida e do modo de poetar. Álvaro de Campos expressa a faceta de Fernando Pessoa voltado para o mundo moderno, a civilização industrial, o universo das máquinas, de que sente, ao mesmo tempo, o fascínio e a repulsa. Pela biografia ficcional, inventada por Fernando Pessoa, sabemos que Álvaro nasceu em Tavira, em 1890, filho de judeus portugueses, e estudou na Escócia, tirando o diploma de engenheiro naval pela Universidade de Glasgow. Acusou as influências literárias de Walt Whitman, poeta norte-americano em sua época considerado escandaloso, quer pela forma de sua poesia (verso livre e vocabulário de baixo calão), quer pelo conteúdo (exaltação da sensualidade impudica), e de Marinetti, poeta italiano fundador do Futurismo. Mas, em verdade, mais do que um “futurista”, Álvaro de Campos é o poeta do “sensacionismo”, o filão português do Modernismo europeu. Este heterônimo, autodefinindo-se como “o poeta das sensações”, afirma postulados humanos próprios: Sentir tudo de todas as maneiras, Viver tudo de todos os lados, Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo... Este conteúdo programático, centrado na exteriorização das sensações, de qualquer tipo que elas forem, é realizado por uma estética que ajusta a forma à essência das coisas: à liberdade que goza a substância do conteúdo corresponde a mesma liberdade na forma da expressão. Diferentemente da do heterônimo Ricardo Reis e da de Fernando Pessoa ortônimo, a poesia de Álvaro de Campos, como a do mestre Caeiro, se compõe de verso livre, sem metro, sem rima, sem divisão estrófica regular. O ritmo corre livre, sem os artifícios dos esquemas e das imagens retóricas da poesia tradicional. A poesia de Álvaro de Campos procura adequar o ritmo poético ao sabor dos objetos de suas sensações. A este heterônimo devemos algumas das mais belas páginas da poesia portuguesa moderna: “Opiário”, “Ode triunfal”, “Ode marítima”, “Tabacaria”, “Ode marcial”, “Poema em linha reta” e “Datilografia”, que passamos a analisar rapidamente: Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

7 -Fernando Pessoa / Ricardo Reis: a herança greco-romana (02/03) Em artigos anteriores, ao estudarmos a poesia de Fernando Pessoa, tentamos explicar o fenômeno da criação dos “heterônimos”, personalidades diferentes que o grande escritor português imaginou coexistirem no seu espírito, e apresentamos a poesia do heterônimo Alberto Caeiro como expressão artística da sabedoria, da lição de vida que nos vem da Natureza. Este heterônimo é considerado o “Mestre” de dois discípulos. Um, Ricardo Reis, que olha para trás, para o passado da herança cultural greco-romana; outro, Álvaro de Campos, que olha para frente, para o futuro do mundo das máquinas. Falaremos agora do poeta epicurista, deixando para uma outra conversa semanal a análise da poesia do heterônimo futurista. Fernando Pessoa, na construção da biografia ficcional deste heterônimo, imagina Ricardo Reis “educado num colégio de jesuítas, latinista por educação alheia e semi-helenista por educação própria”. O Classicismo, portanto, está na base da formação escolar de Ricardo Reis e a cultura greco-romana é sua matéria predileta Outros elementos tradicionalistas de sua personalidade são o estudo da medicina e o seu monarquismo. Ele se sente como o último homem pagão e clássico, exilado no mundo moderno. E o exílio não é apenas espiritual, mas também físico: com a proclamação da República em Portugal, em 1910, ele, o heterônimo Ricardo Reis, descontente com o novo regime político, se afasta de sua terra natal e parte para o Brasil, o refúgio de todos os portugueses de então. A análise de um poema, atribuído a este heterônimo, nos servirá como guia para a compreensão do ideário humano e artístico de Caeiro: Como se cada beijo Fora de despedida, Minha Cloe, beijemo-nos, amando. Talvez que já nos toque No ombro a mão, que chama A barca que não vem senão vazia; E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida. A primeira das três estrofes, de três versos cada, é um convite à amada Cloe para a prática do amor. Essa Cloe (como Lídia e Neera, que aparecem em outras odes de Ricardo Reis) não é, evidentemente, nenhuma mulher real, mas um nome da tradição lírica greco-romana. O convite é para um amor intenso, fazendo conta de que cada beijo fosse o último. O porquê do desejo desta intensidade amorosa está explicado na segunda estrofe: a Morte, absolutamente imprevisível, pode chegar a qualquer momento e aniquilar a individualidade dos dois amantes. A morte é apresentada através de uma imagem muito sugestiva: pela personificação sinedóquica (concreto pelo abstrato e parte pelo todo) da “mão”, que chama a barca. Essa “barca” pertence a um conjunto mitológico de herança clássica: os gregos e os romanos antigos imaginavam o mundo dos mortos separado do mundo dos vivos pelo rio Aqueronte. Um barqueiro, Caronte, fazia a travessia, transportando as almas dos defuntos de um lugar para outro. A barca, evidentemente, volta “vazia” porque ninguém pode retornar do além. Triste e trágica é a função da morte, que “ata”, junta no mesmo feixe, todos os seres, anulando qualquer distinção de classe. O grande pesar do eu poemático é constatar que a morte irá confundir “o que mútuos fomos”, isto é, o elevado sentimento amoroso que ligou entre si duas criaturas especiais (o poeta e sua amada), dotadas de uma sensibilidade excepcional, com “a alheia soma universal da vida”, com o restante dos mortais, estranhos e incapazes de entenderem a profundidade de seu sentimento. O pensamento da perda da individualidade, causada pela massificação da morte, é o que mais aflige o poeta. É evidente nesse poema (e em toda a obra assinada por Ricardo Reis) a influência de dois grandes mestres da Antigüidade, aos quais recorreremos ao longo de outras conversas com os leitores do Diário: o sábio grego Epicuro (341-270), o fundador do Epicurismo, filosofia moral que considerava a busca do prazer como finalidade primordial do ser humano, e o poeta latino Horácio (65-08), considerado pelo crítico Otto Maria Carpeaux poet’s poet (“o poeta dos poetas”), famoso por várias expressões, assim como o proverbial carpe diem (“aproveite o momento presente”) e “a pálida morte bate com golpes iguais à porta dos casebres, como à dos palácios”. O discípulo Reis herda do mestre Caeiro o culto da realidade material e humana que nos circunda, em oposição ao subjetivismo dos românticos e dos simbolistas e aos exageros da arte moderna. Mas discorda de seu mestre quanto à prática deste objetivismo. Reis não se limita, como faz Caeiro, a observar e a contemplar os fenômenos do mundo exterior, mas quer compreendê-los e expressá-los artisticamente de um modo objetivo. A poesia deve configurar a realidade objetiva assim como é vista e sentida pela generalidade dos homens e não através de um prisma individual que a deforme. Daí sua vasta temática: a fugacidade do tempo, a inanidade dos bens terrenos, a força do destino, a imparcialidade e a imprevisibilidade da morte, a efemeridade da juventude, a inconstância do amor.

6- CARNAVAL 23/02 “Não me leve a mal, hoje é Carnaval” Do italiano “Carnevale”, termo formado a partir do latim medieval carnem + vale, que significa “adeus à carne”, o Carnaval é uma festa popular bem antiga, cuja origem pode ser encontrada nas festividades para comemorar a colheita da uva, a vindima, em honra de Dionísio, o deus do vinho na Grécia antiga. A mesma divindade foi cultuada em Roma com o nome de Baco. Eram chamadas “bacantes” as mulheres que participavam dos ritos orgiásticos e “bacanais” os lugares onde as festas aconteciam. Mais tarde, na Idade Média, com o nome de Carnaval, os cristãos começaram a festejar a véspera da quarta feira de cinzas, quando iniciava a Quaresma, os 40 dias de penitência antes da Páscoa, durante os quais era proibido comer carne. Na Terça-feira Gorda e no fim de semana que a precedia, os devotos de Cristo se esbaldavam em comer “polpette” (almôndegas), tomar vinho, dançar desenfreadamente, usando máscaras, para que as pessoas não fossem identificadas. O Carnaval reveste-se de características próprias, conforme o tempo e o lugar. Na Europa, o melhor Carnaval é o de Veneza, famoso pelo desfile e baile das Máscaras. No Brasil, sem dúvida, o Rio de Janeiro apresenta a melhor festa carnavalesca, apreciada no mundo inteiro, pelo desfile dos carros alegóricos, recentemente em lugar fixo e apropriado, o Sambódromo. O Carnaval é uma forma de espetáculo sincrético, de caráter ritual, onde não há separação entre atores e espectadores, sendo vivido por todos. Durante a época carnavalesca há uma suspensão das leis sociais, das interdições morais, das regras normais de vida. Anula-se a diferença de classes e de sexos, a hierarquia, a etiqueta, e se estabelece uma nova forma de relações inter-humanas, fundada no contato livre e familiar entre todos, sem medo de sanções. A língua italiana tem uma expressão que define bem essa liberdade: nel Carnevale, tutto vale (“no Carnaval, vale tudo”), cujo equivalente em português pode ser encontrado nos versos de uma marchinha carnavalesca: “não me leve a mal, hoje é Carnaval”. Entre os atos carnavalescos que legitimam o mundo às avessas o mais importante é o rito da “entronação” bufonesca do Rei do Carnaval. Nas Saturnálias romanas elevava-se ao trono um escravo, que era servido e venerado por seus patrões. O ato ambivalente significava a relatividade de toda estrutura social, a elevação e a queda do ídolo., a profanação do sagrado, a paródia dos valores sociais. Na percepção carnavalesca do mundo são exaltadas as formas paradoxais e as mésalliances: a conjunção do masculino e do feminino, do sagrado e do profano, do alto e do baixo, do belo e do feio, do sublime e do vulgar. A identidade dos contrários e a não-identificação da pessoa é facilitada pelo uso da máscara ou da pintura do corpo com cores berrantes. Predomina o vermelho, a mesma cor do fogo e do sangue, símbolo universal do princípio da vida e da força. Junto com a cor vermelha, nos folguedos do Carnaval é prestigiada a gordura, que simboliza a riqueza e a abundância. O Rei Momo (personificação grega do sarcasmo) é geralmente configurado como uma pessoa gorda, de faces rosadas, com um largo sorriso de prazer satisfeito. Ultimamente, alargou-se o uso da escolha também da Rainha e das Princesas do Carnaval. As máscaras melhor acabadas são as de Pierrô e Colombina, o casal, ao mesmo tempo, alegre e dramático, que se cristalizou no ideário popular. Enfim, é o id (a força do instinto) freudiano que, durante o período carnavalesco, acaba se sobrepondo ao superego (o conjunto das convenções ético-religiosas) que controla a vida cotidiana, liberando o uso do álcool e de roupas extravagantes, a nudez e a libido. O espírito carnavalesco ou “dionisíaco”, conforme a dicotomia apolíneo / dionisíaco, de que fala o filósofo alemão F. Nietzsche, não está presente apenas na época do Carnaval, mas pode ser detectado em quase todas as formas de arte, especialmente na Literatura. Sua primeira manifestação pode ser encontrada no “ditirambo”, o hino em honra ao deus Dionísio: um coro de pessoas “transformadas”, pois se sentiam possuídas pelo espírito divino, no estado de embriaguez, perdida a noção do passado familiar, cantavam e dançavam, dando vazão aos instintos mais primordiais. O crítico russo M. Bakhtine, na esteira de Nietzsche, detecta a presença de duas linhas de forças que dão formas à Cultura Ocidental: uma arte, que ele chama de “monológica” (de uma única voz, conservadora e dogmática), impregnada do espírito “apolíneo” (de Apolo, o deus da luz), onde predomina o princípio da ordem e da fidelidade aos padrões socio-morais; em oposição a uma outra, “dialógica”, perpassada pelo espírito “dionisíaco” da contestação e da revolta. A esta segunda tipologia dá o nome de “literatura carnavalizada”, pois percebe a presença do espírito do Carnaval em muitas obras literárias ao longo da história. Bakhtine coloca, na mesma linha das obras de arte que questionam a realidade, o diálogo socrático, a sátira greco-romana, a literatura picaresca, o Decameron de Boccaccio, o teatro shakespeareano, o romance realista, a narrativa de Kafka e de outros autores, dando peculiar relevo às obras do seu patrício Dostoievski. Como se vê, a festa do Carnaval encerra um sentido muito mais profundo do que possa parecer a um olhar superficial: é a explosão do instinto vital que se revolta contra as normas hipócritas, do dia-a-dia, impostas pelo Estado e pela Religião. Não é sem motivo que os povos e as regiões mais pobres, que mais sofrem pela discriminação social, assim como as minorias étnicas e éticas, são as que mais cultuam as festas carnavalescas.

5- Paternidade Responsável (16/02/ 2006) “O direito de ter pais é maior do que o direito de ter filhos” No artigo da semana retrasada, analisei a relação entre “Inteligência e Miséria”, relevando que, se uma criança não for preparada, desde a pequena infância, a desenvolver seu potencial intelectual e a buscar sua realização profissional, dificilmente terá um bom futuro. Seria como contrariar a lei natural do plantio e da colheita: a terra só dá frutos se semeada e conforme aquilo que se coloca em baixo do solo. Quem nada plantou nada irá colher e quem plantou vento só irá colher tempestade! Ligado visceralmente ao problema da educação das crianças está o do planejamento familiar, que implica no controle da natalidade. Somente um homem tolo ou um governo irresponsável não entende que quanto maior é o número de filhos mais difícil se torna sua criação. A questão é bem antiga: no fim do século XVIII, o economista e religioso inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834), de cujo nome se originou a teoria do “malthusianismo”, tornou-se famoso pela sua obra Ensaio sobre o princípio da População. Ele sustenta a tese de que, enquanto a produção de alimentos cresce em progressão aritmética, a população mundial tem a tendência de aumentar em progressão geométrica. Tal desproporção teria como conseqüência inevitável o aumento da pobreza no mundo. Quando se ultrapassar o limite de tolerância, a própria natureza criaria organismos de defesa, provocando epidemias e guerras. A solução que o cientista sugere para este grave problema social seria aconselhar as povoações pobres a se absterem sexualmente para diminuir a taxa de natalidade. Hoje em dia, vários pontos da tese malthusiana, publicada em 1798, estão superados pelo avanço tecnológico da agricultura, pelo progresso da ciência médica que levou à fabricação de vários tipos de anticonceptivos e pela tendência a considerar o sexo como uma necessidade fisiológica benfazeja e não um “pecado”. Mas a essência do estudo de T.R. Malthus continua vital. O cientista americano Paul Ehrlich, considerado o pai da moderna Demografia, confessa-se um neomalthusiano. Na sua famosa obra The Population Bomb (“A Bomba Populacional”, 1968), verificando que os países e as regiões mais pobres são os que mais geram filhos, afirma que estamos correndo o risco de ultrapassar o limite da sustentabilidade da vida no nosso Planeta. A explosão demográfica já triplicou a população ideal da Terra que, segundo este estudioso, não deveria passar dos dois bilhões de habitantes (estamos com mais de 6.5). Enquanto nações mais desenvolvidas e mais ricas, como a Alemanha e a Itália, têm um índice demográfico quase zero (o número de gente que nasce é aproximadamente igual ao número dos que morrem), países da África, da Índia, do Oriente Médio e da América Latina, que contêm regiões de extrema penúria, aumentam sua população de uma forma irresponsável. Mas a história da formação dos haréns já está melhorando: enquanto, no longínquo séc. XV, o Sultão da Índia, Ghiyas-ud-Din Khilji, teve 15 mil mulheres, na atualidade, precisamente em setembro de 2005, o Rei da Suazilândia, MSWATI III, por um concurso entre 50 mil moças virgens, escolhia sua 13ª esposa, prometendo que seria a última, e, no Canadá, o empresário Winston Black-More, chefe de uma igreja mórmon, com 49 anos, se contenta com apenas 30 mulheres. E já aparece uma luz no fim do túnel, vindo do próprio Extremo Oriente, tradicionalmente prolífero: a China promulgou e fez vigorar uma lei férrea que proíbe às mulheres de terem mais de um filho. Tal providência, junto com o investimento maciço na educação das crianças, fez com que, em apenas duas décadas, passasse de país emergente à Quarta Potência Econômica. do Mundo. Na verdade, não seria necessário fixar, de uma forma ditatorial, o número exato da prole desejada. Bastaria que o Governo obrigasse o cidadão a ter tantos filhos quantos pudesse condignamente sustentar, garantindo, a todos, casa, comida, saúde, educação, profissão, afeto. Enfim, quem é “o pai da criança” que cuide dela, sem transferir o ônus da educação de um filho para a avó, a tia ou a babá! Se fosse feita esta cobrança pelo poder público e imposto penalidades (vasectomia ou laqueadura para quem já deixou um filho na penúria material e espiritual), diminuiria muito o número das crianças marginalizadas. Mas o nosso Governo (municipal, estadual e federal) responde a esta fundamental questão de cidadania com o silêncio. Os políticos, pelo medo de perderem os votos das grandes camadas religiosas, induzidas a não usar anticonceptivos sob pena de cometerem pecado, fazem vista grossa e não apresentam nenhum plano eficiente de controle de natalidade. Através dos programas assistenciais do salário-família, da bolsa-escola, da cesta básica, da fome-zero, do sopão etc., meios diferentes da única finalidade de garantir a reeleição, o governo estimula ainda mais a procriação irresponsável, pois há miseráveis que põem mais filhos no mundo para ganharem, para cada criança, uns trinta reais a mais por mês ou para explorarem o trabalho infantil dos próprios filhos. E os políticos demagogos, para angariarem votos, ainda tiram fotos sorridentes com mulheres pobres e desdentadas com bebês no colo e rodeadas por pencas de crianças. É preciso adquirir consciência de que a necessidade do controle de natalidade transcende o indivíduo, a família e o Estado, sendo um problema que atinge a humanidade como um todo. Haja visto os freqüentes conflitos étnicos, provocados por jovens que, incultos e despreparados, abandonam suas cidades em busca de trabalho em outras regiões ou em países estrangeiros. Sem falar do vergonhoso comércio internacional da venda de crianças, da prostituição de mocinhas pobres, do turismo sexual. Chegou a hora de dar um basta à degradação do gênero humano!

4- Fernando Pessoa /Alberto Caeiro: o Poeta da Natureza - 09/02/ 2006 Nos pequenos ensaios das quintas-feiras 19 e 26 do mês de janeiro, tentei explicar o fenômeno da criação dos “heterônimos”, peculiaridade da poesia de Fernando Pessoa. E disse que cada heterônimo (“outro nome”) exprime, em forma de arte literária, uma das várias personalidades existentes no imortal escritor português. De modo semelhante, a “Anthônia”, de As cartas de Anthônia, da coluna ao lado, é um heterônimo inventado pela escritora Lucila Papacosta Conte para expressar uma faceta de seu modo de sentir a vida. Passo, a partir de agora, a analisar as quatro principais personalidades de Fernando Pessoa: os heterônimos Alberto Caeiro (o poeta da natureza), Ricardo Reis (a voz do passado, da tradição greco-romana), Álvaro de Campos (a voz do futuro, da era das máquinas) e Fernando Pessoa ortônimo (com seu “nome verdadeiro”), que exalta a tradição cultural do povo português. Começo com o estudo da poesia do heterônimo Alberto Caeiro, considerado por Fernando Pessoa como “o mestre” dos outros heterônimos e de si próprio, sendo o primeiro alter ego (“outro eu”) a se esboçar por inteiro no espírito do poeta português. Na biografia imaginária traçada para este heterônimo, Fernando Pessoa apresenta Caeiro como um jovem loiro, de olhos azuis e infantis, que nasceu em Lisboa em 1889, mas viveu toda sua vida na roça, em companhia de uma tia velha, e morreu tuberculoso em 1915. Sua formação escolar não passou do curso primário e sua poesia pretende ser como sua vida: simples, espontânea, instintiva, inspirada pelo contato direto e imediato com a natureza: A minha poesia é natural como levantar-se o vento Ele é o poeta da realidade objetiva, porque descreve o que vê e o que sente, longe de qualquer elucubração mental, inimigo de todas as filosofias. Caeiro procura substituir o pensamento pelas sensações, o subjetivo espiritual pelo objetivo real, a reflexão pela visão direta das coisas. A matéria de sua poesia é o mundo que o circunda: árvores, sol, ovelhas, flores etc.: Eu nunca passo para além da realidade imediata. Para além da realidade imediata não há nada. O órgão-guia de Alberto Caeiro não é nem o cérebro nem o coração, mas a visão: Eu nem sequer sou poeta: vejo. Este heterônimo, além de negar a possibilidade de o homem filosofar (porque, segundo ele, não existe uma “constituição íntima das coisas”, sendo os seres e os objetos apenas fenômenos da natureza) e de proibir qualquer subjetivismo (que levaria à distorção da realidade objetiva), ele também recusa todo tipo de estética, aproximando a poesia da prosa, da linguagem discursiva: Por mim escrevo a prosa dos meus versos E fico contente... Não me importo com as rimas. Raras vezes Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra. A poesia de Caeiro pode ser vista como reação a quase todas as orientações filosóficas e poéticas da época: opõe-se ao Saudosismo, que exaltava o passado; ao Simbolismo, que espiritualizava a natureza; ao Decadentismo, que cultivava o vago e o imaginário; ao Futurismo, que enaltecia a vida socializada e mecanizada; a toda sorte de psicologismo, subjetivismo, humanitarismo. Se quisermos atribuir um “ismo” à poética de Alberto Caeiro, o que mais lhe convém é o “Sensacionismo”: a poesia deve descrever, numa linguagem clara, os seres e os objetos assim como são apreendidos pelos sentidos, pelas sensações.. Não é temerário afirmar que Fernando Pessoa, pela postura poética deste heterônimo, tenta transformar em arte o pensamento filosófico a ele contemporâneo: a Fenomenologia, de Edmund Husserl (1859-1938), que afirmava a verdade dos seres e dos objetos estar em si mesmos, sendo apreendida pela experiência que deles temos. Alberto Caeiro expressa a faceta humana e poética de Fernando Pessoa, que quer viver ao contato da natureza, ver e sentir a realidade assim como ela é, sem nenhuma abstração e sem a intervenção do pensamento reflexivo. Sua concepção religiosa pode ser considerada panteísta, visto que a idéia que ele tem de Deus é imanente, não transcendendo a natureza. A obra poética de Fernando Pessoa, assinada com o nome de Alberto Caeiro, consta de três coletâneas de poemas: O guardador de rebanhos, O pastor amoroso, Poemas inconjuntos. Do primeiro núcleo, transcrevo alguns versos para saborearmos a beleza do poeta da natureza: O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás..... E o que vejo a cada momento É’ aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo... Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... O mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos), Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo da natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, E a única inocência é não pensar...

3- Inteligência X Miséria (02 / 02 / 2006) Decidi alternar meus ensaios sobre a poesia de Fernando Pessoa com assuntos da nossa vida cotidiana, pois um leitor amigo, embora elogiasse minha coluna, ressalvou que ela era dirigida mais para “intelectuais”. Pensando bem, ele está com a razão, pois, ao longo da minha carreira de professor, pesquisador e escritor, sempre tentei me relacionar com gente que tem “intelecto”, quer dizer cérebro, cabeça, razão, bom senso. A inteligência, na sua origem etimológica latina (inter + legere), significa “ler por dentro”, nas entrelinhas, compreender, o que constitui a faculdade própria do ser humano. Enquanto o animal é dirigido apenas pelos instintos, o homo sapiens tem a capacidade de refletir sobre seus atos e seus sentimentos. É claro que há vários níveis e tipos de inteligência. Os estudiosos distinguem entre inteligência emocional, matemática, poética, social, figurativa, cinética, artificial etc., cada qual, se cultivada ao extremo, pode produzir gênios como poetas, artistas plásticos, filósofos, cientistas. Mas acreditamos também na existência de uma inteligência geral, comum a todos os seres humanos, que podemos chamar de lógica ou racional, fundamentada sobre o bom senso, que nos guia na busca cotidiana do conhecimento necessário para conseguir o bem-estar, o prazer existencial. Na verdade, falar de “intelectuais” como se fossem uma raça diferente dos seres comuns não faz sentido. A ilustre escritora Lya Luft, no “Ponto de vista” da revista Veja de 25/01/06, intitulado “As elites e o povão”, afirma claramente: “O intelectual de primeira é o que de verdade pensa, lê, estuda, escreve, pesquisa e atua”. Acontece que a inteligência, conatural ao ser humano, não se desenvolve automaticamente. Necessita ser cultivada, aguada diariamente, como se fosse uma plantinha. Pensar, ler, estudar, agir conforme o bom senso: eis as atividades que devem ser estimuladas em todo ser humano, desde a primeira infância. O espetáculo mais vergonhoso que um País possa apresentar é a existência de crianças abandonadas, pedindo esmolas, cheirando cola ou traficando drogas. Cuidar da primeira infância e da adolescência é fator fundamental para a construção de uma verdadeira cidadania, de uma Nação que possa se considerar civilizada. A responsabilidade é tanto da Família quanto do Estado, pois o abandono das nossas crianças está na origem do desemprego, da delinqüência, da injustiça e da miséria social. Quando os pais não podem, a obrigação de assistir as crianças é do governo (municipal, estadual e federal), garantindo creches e escolas para todos e em tempo integral.. A criança deve ser assistida, no mínimo, oito horas por dia, para participar das aulas, fazer as tarefas de casa, ler jornais, revistas e livros, praticar um esporte e uma educação artística. No Orçamento da República, do Estado, do Município e da Família, a verba destinada à Educação deveria ser satisfatória, absolutamente prioritária e gasta com extrema eficiência porque, como está demonstrado pela experiência feita em vários países emergentes, está aí que reside o futuro de uma Nação. E não se diga que não há dinheiro suficiente, quando os detentores do poder se dão ao luxo de fazer obras suntuosas, pagar altíssimos salários a burocratas, ter inúmeras mordomias, comprar aviões caríssimos, viajar em caravanas pelo mundo inteiro, promover festanças a custo do erário público, gastar uma fábula com propagandas e programas assistenciais eleitoreiros, que não resolvem os problemas sociais na sua raiz. É preciso acabar com uma cultura baseada na inversão de valores: há gente pobre que se lamenta por não ter dinheiro para comprar o leite das crianças, mas nunca renuncia à cervejinha e à “pitadinha”. Está na hora de mudarmos o conceito do nosso “herói nacional”, o homem sem caráter e sem cultura, o carnavalesco vagabundo e irresponsável, tipo Sargento de Milícia ou Macunaíma da tradição literária brasileira. Vamos propor como modelo de herói para nossos jovens o homem estudioso, trabalhador e responsável por seus atos! Num recente estudo, que se encontra no meu site, proponho uma “Campanha Nacional para a construção de uma Cidadania”, onde aponto problemas estruturais, sugerindo soluções possíveis a longo e médio prazo: “Não à Reeleição; Bipartidarismo; Escola integral; Planejamento familiar; Estado laico; Privatização da Saúde e da Previdência; Remuneração por mérito; Transporte ferroviário; Voto consciente”. Vamos discutir essas idéias, pois somente o cultivo da Inteligência nos salvará da Miséria social.

2- FERNANDO PESSOA: Uno e Múltiplo (o criador dos “heterônimos”) 19 e 26 / 01 /2006 Para colaborar com o concurso de poesia “Noberto Buzzini”, promovido pelo Diário da Região, resolvi dedicar este e mais quatro artigos semanais ao “fazer poético”, antes de abordar outros assuntos que fazem parte do projeto de divulgação “Cultura Essencial”: mitos, religiões, filosofia, política, cinema, teatro, autores, obras e temas fundamentais. Uma candidata me telefonou perguntando: “o que devo fazer para me tornar uma boa poetisa”? Aconselhei que, em primeiro lugar, lesse as obras dos maiores poetas da língua portuguesa: Camões, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Morais, João Cabral, Cecília Meireles, entre outros. Partindo do pressuposto científico de que “nada se constrói a partir do nada”, quem não tiver uma boa base cultural, dificilmente dirá algo que tenha uma certa substancialidade. Como introdução ao estudo da Poesia, escolhemos Fernando Pessoa, que expõe artisticamente visões de vida diferentes e até contraditórias. O maior poeta moderno de Portugal tornou-se imortal não apenas pela beleza de seus versos e pela acuidade de seus pensamentos críticos sobre a vida e sobre a arte literária, mas especialmente por ter inventado personalidades poéticas distintas de si próprio. Sua obra lírica leva a assinatura de vários “heterônimos”, distinguindo-se em sua produção poemas atribuídos a Alberto Caeiro, a Ricardo Reis, a Álvaro de Campos e a Fernando Pessoa ele mesmo ou “ortônimo” (= nome verdadeiro). Essas quatro personalidades humanas e poéticas serão analisadas, uma por uma, nos próximos artigos. Hoje estudamos apenas o fenômeno da criação heterônima. “Heterônimo” significa, etimologicamente, “outro nome”, um nome imaginário a quem é atribuída a autoria de coletâneas de poesias. É preciso não confundir “heterônimo” com “pseudônimo”, que significa “nome falso” de uma mesma pessoa. Os heterônimos foram concebidos como seres diferentes de seu autor, pois Fernando Pessoa não se limitou a assinar seus poemas com nomes fictícios, mas criou, junto com cada nome, uma personalidade humana e poética com biografia, cosmovisão e tendências literárias próprias. A heteronímia é, portanto, um caso de “desdobramento de personalidade”: da aparente unidade psíquico-intelectual de Fernando Pessoa emanam e se substancializam diferentes modos de sentir o mundo e a poesia. O poeta português, autodefinindo-se “um novelo embrulhado pelo lado de dentro”, procura desembrulhar-se, colocando para fora de si as diversas tendências humanas, filosóficas e artísticas, que estavam confusas no seu espírito: Multipliquei-me, para me sentir, Para me sentir, precisei sentir tudo, Transbordei, não fiz senão extravasar-me, Despi-me, entreguei-me, E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente... Deixo ao cego e ao surdo A alma com fronteiras, Que eu quero sentir tudo De todas as maneiras... E como são estilhaços Do ser as coisas dispersas Quebro a alma em pedaços E em pessoas diversas Essas “pessoas diversas” são os heterônimos. O próprio sobrenome do poeta português significa, segundo o étimo latino, “máscara”, fingimento: “pessoa” vem de persona, substantivo composto pelo prefixo per (através de) e sonun (som). Persona era chamada a mascara que os atores do teatro greco-romano usavam para camuflar sua figura física, sendo conhecidos pelo público apenas através de sua voz. A coexistência de várias pessoas, de “vozes” diferentes no mesmo ser, cria um tormento no espírito do poeta: daí a necessidade de quebrar “a cadeia de ser um”, de libertar-se do sofrimento dos contrastes acumulados dentro de si. O fundamento psíquico da criação heterônima reside na complexidade do ser humano: o espírito é um “pseudo-simplex”, a unidade do eu não passando de um preconceito. Cada um de nós encerra dentro de si uma pluralidade de vozes, de tendências, de desejos, de idéias, de sentimentos, que muitas vezes são contraditórios. Fernando Pessoa consegue superar artisticamente esta contradição imaginando a coexistência, dentro de si, de vários seres, cada qual indicando uma faceta peculiar de seu espírito. Foi assim que ele pôde: Sentir tudo de todas as maneiras, Viver tudo de todos os lados, Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo. A capacidade de sentir várias coisas ao mesmo tempo, de desdobrar sua personalidade ou, para usar seu neologismo, de se “outrar”, se manifesta em Fernando Pessoa desde a infância: com apenas seis anos de idade cria o primeiro heterônimo, um certo Chevalier de Pas, em cujo nome “escrevia cartas dele a mim mesmo”. A produção dos poemas em língua inglesa da juventude, entre 1903 e 1909, é atribuída ao heterônimo Alexander Search. Mas é só a partir de 1914, ano em que imagina ter andado “viajando a colher maneiras-de-sentir”, que Fernando Pessoa inventa os três heterônimos melhor acabados e mais importantes, atribuindo-lhes a autoria das Ficções do interlúdio: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. A nosso ver, para a gênese dos heterônimos concorreram vários fatores: a constituição biopsíquica do poeta português, que se autodefiniu “um histérico-neurastênico”, tendo dificuldades em se relacionar afetiva e sexualmente com mulheres: a introversão induz à introspecção, fazendo com que o poeta descubra, analise e dê vida própria às contradições que o habitam; o interesse pela teosofia, pela alquimia e pelas ciências ocultas: é sabido que Fernando Pessoa, como outros poetas de sua época (Novalis, Poe, Baudelaire, Yeats), se interessou pelos fenômenos parapsicológicos e pelas doutrinas místicas, que proliferavam na Europa, no começo do século XX, com o intuito de combater o racionalismo e o naturalismo dominantes; o próprio background cultural: no fim do séc. XIX, pela influência da filosofia existencialista, pela difusão das várias correntes psicanalíticas e pelo progresso das teorias científicas sobre a relatividade, o dogma antigo da personalidade una e compacta entra em crise e vários escritores procuram expressar em forma de arte a multivocidade do ser humano. O fenômeno pode ser relevado especialmente em Kierkegaard (1813-1855), o pai do Existencialismo, que se desdobrou em vários autores pela necessidade de se manter imparcial ante o desenrolar do seu pensamento dialético; nos Diálogos filosóficos do escritor francês Renan (1823-1892), afirmando que, quando refletia, tinha a impressão de ser o autor de um diálogo entre os dois lóbulos de seu cérebro; nos escritos do espanhol Unamuno (1864-1936), que coloca à base do sentimento trágico da vida a luta, dentro do mesmo indivíduo, entre a “Inteligência” (= as forças racionais) e a “Vida” (= as forças irracionais), considerando o vital como irracional e o racional antivital; no escritor italiano Pirandello, especialmente na peça Seis Personagens em busca de um Autor, famosa por criar personagens com vida própria e com multiplicidade de aspectos, como podemos perceber por uma fala do protagonista: O drama para mim está todo nisso: na convicção que tenho de que cada um de nós julga ser “um”, o que não é verdade, porque é “muitos”; tantos, quantas as possibilidades de ser que existem em nós: “um” com este; “um” com aquele — diversíssimos! E com a ilusão, entretanto, de ser sempre “aquele um” que acreditamos ser em cada ato nosso. É mentira! Os dois grandes gênios contemporâneos, o lírico português Fernando Pessoa (1888-1935) e o dramaturgo siciliano Luigi Pirandello (1867-1936) se encontram na expressão artística do mesmo tema que é eterno, pois vivido (embora não sempre percebido) no dia-a-dia do ser humano: a ilusão de possuir e agir conforme uma personalidade única e coerente, quando na verdade estamos envoltos na mentira do querer parecer o que não somos na realidade. Fingir é tão natural, que nem sequer tomamos consciência da nossa atitude hipócrita. Essa diversidade, oculta pela aparente unidade da personalidade humana, se torna manifesta especialmente no discurso político: os aspirantes ao poder prometem hoje o que não vão fazer amanhã e, depois de eleitos, passando da oposição para situação, começam a mamar nas tetas da Pátria Amada, atualizando os arquétipos do egoísmo e da prepotência, estimulados pela força do poder. Esquecem-se, assim, do que disseram e do que foram, mudando completamente sua postura ideológica. E o pior é que a grande massa do povo continua votando neles!

1- Poesia é conhecimento (12/ 01 /2006) O termo grego poiesis significa o "fazer" artístico, indicando a criação literária em todas suas formas. A poesia é a arte da palavra em versos ou em prosa. Nesse sentido geral, Machado de Assis é poeta tanto quanto Fernando Pessoa ou o dramaturgo italiano Luigi Pirandello, pois a linguagem poética não está necessariamente ligada a esquemas estróficos, rímicos ou rítmicos. Aristóteles, o primeiro grande estudioso da Literatura, distingue a palavra "narrada" (o poema épico que conta histórias míticas de heróis nacionais), da palavra "cantada" (os poemas líricos, acompanhados da música e do canto, que exprimem sentimentos individuais) e da palavra "representada" (o gênero dramático, em que fatos e idéias são expostos em cena por atores). Independentemente do gênero, importante é salientar que qualquer produção literária é uma forma de conhecimento da realidade, quando ela é verdadeiramente artística, superando os limites do espaço e do tempo. É preciso entender que ler um poema ou um romance, assistir uma peça ou um filme, olhar um quadro ou uma estátua, ouvir uma música popular ou a ária de uma Ópera, nos proporciona, além do prazer estético, tanto conhecimento sobre a nossa realidade quanto um tratado filosófico ou a descoberta de uma lei científica. O ser humano se distingue de animais e plantas pelo uso da razão, que estimula sua “curiosidade” para conhecer o mundo em que vive. Toda a atividade humana visa, portanto, a aprendizagem de um “saber”. Existem várias formas de conhecimentos que se distinguem entre si não pela finalidade, que é comum a todos (a busca da verdade e da felicidade), mas pelos meios de que o homem se utiliza. Assim, o conhecimento empírico se dá pela “experiência” da vida; enquanto o técnico pela “aprendizagem”; o mítico pela “crença”; o filosófico pelo uso da “razão”; o científico pela “observação”, seguida da experimentação; o artístico pela recurso à “fantasia”, à imaginação, à ficção. Mas não se confunda “fictício” com “mentiroso”, pois o conhecimento artístico é falso apenas no plano histórico ou da realidade física: Capitu, a imortal personagem do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, não é um ser existente no plano da realidade material, porque não nasceu da união carnal de um homem e de uma mulher, mas é apenas fruto da fantasia, da inteligência criadora de seu autor. E por ser uma entidade espiritual, ela se tornou imortal, não estando sujeita às leis do tempo e do espaço. Morreu o autor, mas não sua criatura artística. Mas o fato de não ser real não quer dizer que a personagem de ficção não seja verdadeira. Muito pelo contrário: a figura de Capitu é mais autêntica do que qualquer mulher do mundo da realidade. Explicamos: o ser humano, em carne e ossos, é vítima das normas sociais e dos preconceitos morais. Pelo sentimento do pudor ou por medo de sofrer sanções, a gente acaba ocultando as idéias e os desejos mais recônditos, que contrariam as convenções ético-sociais. Recorremos, portanto, ao uso da máscara psicológica de seres bem comportados, integrados no convívio social, vivendo de uma forma hipócrita, sem nunca manifestar nossas aspirações mais secretas, que são muitas vezes inconfessáveis. Isso não acontece com o ser ficcional que, por ser apenas fruto da fantasia, não está sujeito a apreensões ou ao medo de sofrer penalidades. Tal liberdade faz com que as criações artísticas possam exprimir as verdades mais profundas do ser humano, atingindo o universal, o eterno, o absoluto. Segundo a bela expressão do ficcionista Franz Kafka, "a Literatura é sempre uma expedição à verdade". De outro lado, o escritor argentino Júlio Cortázar, afirmou claramente a existência de uma interação profunda entre arte, filosofia e ciência: "Para mim, a poesia e o pensamento são um sistema de vasos comunicantes. A fonte de ambos é minha vida: escrevo sobre o que vivi e vivo".

Salvatore  D’Onofrio  (saldo1@ig.com.br) www.salvatoredonofrio.hpgvip.com.br

Professor da UNESP e Autor da

PEQUENA ENCICLOPÉDIA DA CULTURA OCIDENTAL